sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Uma bola de boliche derrubando os pinos do bom senso


Crônica publicada no site de CP (28.02.14)

Quem nunca na vida um dia se sentiu doentiamente sucumbido por desejos incontroláveis, e como uma pena bailando no vento se vergou a determinada situação? Ou quem sabe até mesmo implorou para ser desgovernado por algo que possivelmente irá lhe causar sérios problemas? Quem nunca? Sentimentos autodestrutivos muitas vezes não passam de poderosos bólidos que funcionam como bolas de boliche deslizando a mil por hora, derrubando os pinos do bom senso como se fossem feitos de isopor.

Strike!

Isso me faz lembrar uma frase de “Thing Have Changed”, canção de Bob Dylan escrita para o filme “Garotos Incríveis”, de Curtis Hanson.  A letra diz assim: “some things are too hot to touch”. Se você suspender uma lâmina alguns segundos sob uma chama e depois tocá-la com seus dedos, é óbvio que irá se queimar. E muitas vezes precisamos sentir as dores de uma queimadura para aprender a lição.



Aí eu chego até uma daquelas intrigantes lendas medievais. Segundo essa historinha antiga, Incubus são demônios masculinos que afetam as mulheres e Sucubus são demônios femininos que afetam os homens, ambos sempre agem à noite enquanto suas vitimas dormem, sugando suas forças vitais através do ato sexual e possuem uma aparência sedutora de acordo com o padrão de beleza da época vigente. Tá na Wikipédia.

Inccubus
Porém, segundo a demonologia, tanto Sucubus quanto Incubus descendem de um mesmo demônio. Exemplo: para uma mulher apareceria na forma masculina e para um homem esse mesmo demônio apareceria com a forma feminina.

Assustador, você não acha?

Sempre fui ligado no significado das palavras. Assim, faço conexão entre o demônio Sucubus e a palavra sucumbir. O dicionário Houaiss nos avisa: “quem sucumbe é alguém que cai sob o peso ou a força de algo. Quem sucumbe se dobra, se verga, não resiste, é vencido. Quem sucumbe a alguma coisa, cede e se entrega”.

Okay. Agora se partirmos para o campo de etimologia, a coisa fica ainda mais intrigante. Saibam que a palavra deriva do latim succumbo – e significa deitar-se abaixo, cair debaixo, ter cópula carnal, ceder ao sono, enfim, entregar os pontos. Alguém duvida que de Sucubus deriva a palavra sucumbir?

Como um homem-bomba com um cinto crivado de explosivos, você sabe que tudo irá pelos ares. Mesmo assim, o lance é se iludir com a recompensa. Depois do BOOM, quem sabe o suicida irá acordar no paraíso ao lado de dez virgens.

Succubus
Eu outro viés, sempre fui fascinado por algumas figuras maléficas da história. Não falo em admiração pelos atos diabólicos dessa trupe dos livros, mas sim uma curiosidade danada em entender por que certas pessoas escolheram o caminho da vilania. Entender o que pensa essa gente talvez fosse um dos caminhos para explicar o andar da carruagem da humanidade e certos rumos do planeta. Será que muitos de nós não poderíamos fazer atos semelhantes?

Quem sabe se estivéssemos no lugar desses mesmos personagens também não sucumbiríamos aos irresistíveis desvios que levam aos palácios do prazer, da luxúria e da riqueza? Voltando ao campo da ficção, se alguém assistiu “Coração Satânico”, filme de Alan Parker, com Mickey Rourke, vai se lembrar do drama do protagonista. Harry Angel descobriu que o inferno estava dentro dele. O paraíso também estava lá, isso antes dele sucumbir a um monte de coisas. “I went down to the crossroad / fell down on my knees”, alguém se recorda desse blues? Vou até a encruzilhada e volto na semana vem.


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