Grama cortada, consciência pesada



Crônica #58 publicada no Diário de Santa Maria 06/09/2013 | N° 11783


Ele coloca uma bermuda, camiseta de física e calça o velho par de botinas. O gramado precisa de um corte urgente. O mato e as ervas daninhas tomaram conta de tudo. Faz tempo, estão sufocando a grama. Se você olhar para o terreno, não verá vestígios de alguma forma organizada de cultivo por ali, apenas um monte de inços indesejados. Passado o inverno, tiririca, barba de bode, picão preto, voadeira, beldroega, urtiga, carrapicho e tantas outras pequenas vegetações, proliferam assustadoramente em volta daquela casa e desafiam seus parcos conhecimentos em botânica. Tem uma porção de coisas com nomes não identificados proliferando a passos largos. Inclusive, algumas delas devem servir pra algum tipo de tratamento fitoterápico.

Quando a estação fria se despede, anunciando a proximidade da primavera, prontamente os brotos das árvores apontam, vingativos, nos galhos (aparentemente) secos, indicando que outro ciclo se iniciará. Temperatura agradável, cheiro de floração no ar, o sol queimando mais forte às quatro da tarde. Ele estica a extensão, liga o fio na tomada, aperta o botão vermelho na máquina e começa a patrolar o gramado. Passeia pelo terreno com a máquina. Em pouco mais de uma hora, atora um sapo no meio, entorta uma das pás com as pedras escondidas no terreno, leva um ricocheteio de caco de vidro na canela (uia!) e finalmente finaliza o trabalho mais pesado. Faz os acabamentos com uma tesoura e leva um tempo até recolher todos os resíduos. Acumula a grama e o mato desbastado no fundo do pátio, e se o tempo colaborar, em uma semana tocará fogo naquele troço.

Enquanto recolhe o material e brinca com o cachorro, fica curtindo os últimos raios de sol iluminando o gramado barbeado e asseado. É bonito de ver o resultado do seu esforço. Aquele ‘shape’ no quintal valoriza o arvoredo, assim como as gatas parecem felizes em perceber os grilos desguarnecidos de seu esconderijo natural. Um joão-de-barro, cuidadosamente, disputa os insetos enquanto esgravateia o chão. Os matizes no céu ganham tons rosados e a temperatura despenca rapidamente. Um pedaço da lua desponta morro acima. Mas sabe o que não sai da cabeça dele? É que, como não arrancou as ervas-daninhas, ao passar com a máquina sobre a vegetação, as pás do cortador inevitavelmente, além de cortar a grama, também lançaram as sementes igual confete envenenado pelo terreno. As raízes nocivas também não foram ceifadas. Por isso, não tem jeito: o mato voltará a crescer com o mesmo viço de antes. Provavelmente mais fortes. “O que fiz?”, ele se pergunta. “Afinal, não adianta maquiar a situação”, conclui em pensamento.

Varrer o lixo para debaixo do tapete, quase sempre uma estupidez.

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