Uma imagem clássica de um álbum inesquecível



Crônica #55 publicada no Diário de Santa Maria 16/08/2013 | N° 11765
Sempre achei que o olho ainda é a melhor máquina da imagem. Na maioria das vezes, o que é capturado pelo olhar humano, nenhum equipamento conseguirá reprisar. Aprisionar o segundo mágico - esse é o grande desafio de quem fotografa. Encapsular um dropes do tempo e transforma-lo numa preciosa filigrana da eternidade. Tem uns caras que já chegaram perto. Folhando um velho livro de fotografias que tenho em casa, revi alguns takes de gigantes do gênero. Em cada foto, minha cabeça girava montando histórias por trás do que via. O que aconteceu antes do clique? O que se sucedeu depois que o fotógrafo baixou a guarda? Cada personagem carrega uma ciência conectada às cenas.
Henry Diltz, o fotógrafo da capa. Foto: Paul Zollo
Por exemplo, imagens e capas dos LPs nunca deixaram de me encantar. Tem uma em especial, que sempre inspira curiosidade: a foto impressa no primeiro álbum do trio Crosby, Stills & Nash. 

Grande disco, muitas sensações. 

Lançado em 1969, na imagem vemos três camaradas sentados a um sofá carmim esfarrapado, recostados confortavelmente junto a um humilde casebre de madeira. Na foto, temos David Crosby, preguiçosamente espichado no sofá. Bem ao centro, vemos Stephen Stills, dedilhando uma nota qualquer no violão, e na outra ponta, Grahan Nash, atento ao disparo da câmera fotográfica de Henry Diltz, o homem que apertou o botão e eternizou o encontro. Ah, e ainda tem o elemento surpresa! Na contracapa, o baterista Dallas Taylor aparece espiando pela vidraça da janela de uma porta de madeira. O que muita gente não sabe é que o rosto de Taylor foi acrescentado à foto, ele não estava lá.

Isso aconteceu porque, egressos de outras bandas, quando o trio de dissidentes realizou a sessão de fotos, semanas antes da conclusão das gravações, eles ainda não tinham nome definido e não haviam encontrado o baterista que iria auxilia-los na feitura do futuro álbum. A casa abandonada em que foram feitas as imagens, ficava localizada em West Hollywood, em frente a uma lavagem de carros. Quando Dallas Taylor efetivou como membro do projeto, David, Stephen, Grahan e o fotógrafo, retornaram com o baterista até lá, para então, refazer a foto com o novo colaborador. 
Tiveram uma surpresa.

O casebre havia virado uma pilha de madeiras. Isso simboliza uma dos truques da fotografia, na imagem, a casa continuava intacta, e assim, Taylor pôde ser incluído “mentirosamente” na foto da contracapa.

Olhar uma fotografia é como embarcar em uma máquina do tempo. Álbuns de famílias, capas de discos, fotos antigas no jornal, imagens aleatórias buscadas na internet, são apenas tentativas de guardar um pedaço do tempo. E quando o fotógrafo consegue chegar perto desse objetivo, acorrentando uma fração de segundo com seu clique mágico, aceitamos que há limitação de nosso olhar frente a essa máquina. Os olhos registram o sublime em nossa memória, que pateticamente não encontra um meio de expor aos outros sua experiência. O fotógrafo, com ajuda de sua máquina, tem esse coelho na cartola.

Esse post acena para o Dia Mundial da Fotografia, data comemorada no dia 19/08.

Basta um clique e você vai abrir um baita sorriso. 

Experimente.

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