Nightclub


Crônica #54 publicada no Diário de Santa Maria 02/08/2013 | N° 11753

A bola de espelhos gira e distribui luzes por todo o ambiente. Como um tolo, ele fica olhando aquele pisca-pisca que parece antecipar as luzes de Natal. Puro brilho e contentamento. A música eletrônica não oferece nenhum tipo de atrativo, pelo contrário, parece que o bate-estaca está enchendo a bunda dele de pontapés. Como se tivesse o expulsando dali. Tonteia com aquela combinação estranha e claustrofóbica. Paralisa. Ele é um estrangeiro honorário com extrema dificuldade de se comunicar, como se falasse outra língua. Fica encostado em um pilar e até consegue bater o pé, meio que desajeitado, mas tentando se inserir no contexto. Mas não ‘tá fácil.

Alguém se aproxima e lhe pergunta algo. Ele coloca a mão no ouvido e inclina a cabeça, que fica bem próxima desta garota, tentando explicar que não entendeu o que foi dito. Ela repete, falando mais alto, bem no momento em que muda a música, e fica mais grave. O que acontece? Novamente não entende nada. Ela fica brava e dá de ombros, se afastando dele. Definitivamente, ficou perdido naquela tentativa de diálogo.

Resolve ir até o balcão e pede um cardápio. Os drinques são caros pra caramba! Pede uma cerveja. O garçom teve dificuldade de entender o que ele quer. Precisa apontar ‘pro papel para que o barman finalmente o entenda e o atenda. No final das contas, a ceva veio quente. O tempo todo fica se perguntando: “O que estou fazendo aqui?”. A cada segundo, uma nova evidência dava um toque na sua cara: “Salta fora, rapá!”.

Procura um rosto conhecido. Não encontra. Aquele nightclub não foi feito para pessoas como ele. Paga a conta e volta para as ruas em direção ao caminho de casa. Mora a algumas quadras dali, portanto, resolve ir a pé. Não importa a direção que se vai quando não se sabe aonde ir. Na verdade, não está com vontade de voltar para a cama. Meia quadra adiante, o pisca-pisca de outro boteco atrai seus olhos cansados. Coloca a mão no bolso, e fica parado no meio da calçada olhando a porta de entrada. Não há fila. “Entro ou não entro nessa joça?”. Acaba entrando. Engraçado, dessa vez em um ambiente menor, de cara, se sente mais a vontade. Talvez porque o bar não esteja lotado. Fica olhando para a TV, onde passa um show do AC/DC gravado em Buenos Aires. Angus Young está vestido com a roupa de sempre, um colegial endemoniado que pula de um lado para o outro, como se fosse um garotinho. O público argentino responde a altura.

Enquanto não descola os olhos da tela, ele fica repetindo a palavra nightclub meia dúzia de vezes, bem baixinho: “náiticlâb, náiticlâb, náiticlâb...”. Nunca entendeu por que faz coisas desse tipo. O som de certas palavras o atrai. Certo, algum troço dentro da cabeça dele não funciona muito bem. Angus começa a tocar o riff de You Shook Me All Night Long. Debruçado no balcão, lentamente enrola os fios do seu bigode, bate o pé (agora com certa elegância) enquanto observa zelosamente a cerveja ficando choca entre as mãos.


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