Insônia




Crônica #54 publicada no Diário de Santa Maria 09/08/2013 | N° 11759


Oh, insônia! Por que força a fechadura da porta do meu quarto justamente quando estou tão cansado de tudo e de todos? Por que me fragiliza com seus infortúnios e maledicências? Insônia, tal como um corvo agourento, repousa com propriedade e abre suas asas na guarda da minha cama, crepitando as garras sobre os lençóis e puxando com unhas afiadas os cobertores para baixo. Insônia que me deixa nu, tremendo de frio e me assombra com memórias daquilo que vivi há milhares de anos, ou há apenas dois minutos. Tenho certeza que aos olhos desse demônio impiedoso, mil anos não diferem do dia de ontem, cruzando rápidos como um piscar de olhos. A insônia é igual a um psicopata partindo pra cima com uma arma de fogo na mão. A insônia fragiliza o tempo que vai precisar de bem mais do que sessenta segundos para me convencer que os ponteiros do relógio não estão pregando uma peça.
Ah, maldita insônia dessa noite fria. Sob esse jugo, sigo aborrecido e contrariado em rezar nessa cartilha a qual sou obrigado a praticar tua doutrina. Não vou me ajoelhar ou implorar por piedade ou me render a essa vereda. Por favor, pare de apontar teu dedo em riste na minha cara. Abandona o inverno dos meus dias e não transforma outra madrugada chuvosa em um pavoroso filme de terror, atopetado de efeitos especiais enganadores. Chega de raios, trovões e jogos cênicos de esconde-esconde. Imploro por uma pausa de todo e qualquer pensamento. Insônia, por que grita tão alto bem próximo ao meu ouvido e puxa meus pés quando quase pego no sono? Sou um pescador que lança linhas na correnteza, esperando um peixe graúdo que possivelmente não irá morder a isca. Mesmo assim, fecho os olhos e busco o Eldorado no lago artificial de meu travesseiro. Tenho a impressão que alguém trocou as plumas por espinhos e cacos de tijolos.

Entendo que há recados e duplicidades em teus avisos e missivas. Contradição? De minha parte, gratidão, eu diria. Por isso, preciso sim compreender tua [suposta] indesejada visita, pois sem dúvida, há um sinal de alerta sendo soprado sem nenhuma sutileza. Abençoada seja essa santa insônia de agosto, obrigado por colocar o holofote na minha cara e lembrar o quão frágil sou dentro dessa armadura corpórea que eu habito. Obrigado pelas aulas de reforço e por fixar-me no devido lugar que nunca deveria ter saído.

Por fim, bendita insônia que pega na minha mão e me conduz por esse corredor estreito que leva até o limbo. Espreme meus ossos e raspa o verniz do sono pesado, e, por favor, livra-me do engodo de uma vida que não é a minha. Daqui alguns dias, quando novamente receber tua visita, quero encontra-la com o coração aberto, e quem sabe, bater um longo tête-à-tête ao som do Vento Norte. Vai acontecer de novo.


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