Cacos de vidro e pétalas de rosa



Crônica #56 publicada no Diário de Santa Maria 23/08/2013 | N° 11771


Espia pela porta e vê muitas garrafas quebradas. Centenas delas. Entreabre a porta e o ranger do metal com a madeira produz um ruído. As janelas estão escancaradas, e quando o sol bate nos cacos de vidro, produz um mosaico de cores que refletem raios lasers fictícios nas paredes brancas daquela sala vazia. Gosta do que vê – luz e sombra. Os estilhaços no chão parecem um estranho tapete carnívoro sedento pelos pés descalços de um novo passante. Levanta a cabeça e olha para frente com um tipo de olhar Messiânico pertencente aos Heróis. Mas... Por um instante, a confiança se esvai e ele reluta. Parece sentir antecipadamente a dor de dezenas de fagulhas perfurando a sola dos pés. Segundos depois, cria coragem e progride sobre a superfície cortante. Não há dor. O barulho do impacto da pisada firme se chocando contra as lâminas de vidro lembra som de mastigação, parecido com alguém faminto devorando bolachas cream cracker.

Ele segue e não há dor. Chega até uma antessala e agora o cenário muda. Um número incontável de pétalas de rosas vermelhas jogadas no assoalho assombra seu olhar. Novamente olha para os pés e agora vê que o vermelho também toma conta da sola dos pés, vazando como tinta guache por entre os dedos. Sangue. Mas ainda não há dor. Novamente a luz toma conta do ambiente. Caminha adiante e diversas pétalas ficam adesivadas aos seus pés. A pisada fica mais macia. Chega até um ambiente menor, sem janelas e pouca luz. Aquele local semelhante a um banheiro está coberto de azulejos brancos do teto ao chão e tem no seu centro uma enorme banheira. Há um abajur em uma das extremidades, distribuindo fachos alaranjados que deixam sua pele com a aparência de desenho animado. Como um herói da Marvel. Ao se aproximar da banheira, fica de cócoras e coloca a mão dentro do bojo. Água morna. Tira a camiseta, jeans e a cueca e se ajeita dentro daquela pequena piscina.

Dentro d’água, a mansidão vai tomando conta. Escora a cabeça na borda e fecha os olhos. Percebe que uma brisa leve vai tomando conta do ar, um sopro agradável. Abre os olhos e só agora vê uma diminuta báscula entreaberta junto ao alto do teto. Um vapor semelhante a fumaça de cigarro surge serpenteando por entre aquela abertura, distribuindo um suave aroma de pinho. Percebe que a saliva ganha um gosto de eucalipto. O coração fica acelerado e dá pra ouvir os batimentos cardíacos como se fosse um pedal no bumbo de uma bateria.

A fumaça se materializa numa figura humana de túnica e capuz. Levanta da banheira como uma baleia sendo arpoada. Água para todos os lados. Aquele estranho ser permanece imóvel. O homem nu fica acuado num dos extremos, e percebe um interruptor de luz.

Liga.

Acorda.

Um copo de água com limão desaba do criado mudo direto para os cobertores. Um desastre no sono às três e vinte da matina. 

Ele resolve que vai parar de ver filmes antes de dormir.

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