O fazedor de barulho




Crônica #52 publicada no Diário de Santa Maria 19/07/2013 | N° 11741

Nunca conseguiu explicar o porque disso, mas sente um estranho prazer em assinar parte de suas ações com baques e barulhos característicos. Para quem não sacou o espírito da coisa, é simples. Por exemplo: gosta de bater portas de forma abrupta. Armários, cancelas, caixas, enfim, tudo que possa gerar um estampido seco. Outra cena, de madrugada, ao caminhar no asfalto ou em algum terreno pedregoso, quando o silêncio paira sobre a noite, necessita ouvir o som dos tacos do par de botinas chispando sobre o chão. Batucar no teto do carro é algo que sempre lhe dá prazer. Acionar alarmes que lembram golfinhos o faz sorrir. É como se precisasse de evidências que não passou dessa pra outra. Sim, ele não é um fantasma. A cada novo rugido das moléculas promovido pelos seus movimentos, existe uma prova de que está vivo.

Esse troço do som talvez aconteça por que muitas vezes tem a impressão de quê tudo que vê e sente – é tão nebuloso e embaçado. Artificial como um comercial de cartão de crédito. Sorrisos demais, cores em excesso, sabe? Como uma foto publicada no Instagram, essas imagens antecipam previsíveis finais felizes e cinematográficos. As coisas precisam dar errado de vez em quando. O velho Neil já dizia: “Só merece o sucesso quem conhece o fracasso”. Pois bem, novamente, ele acaba de estourar o limite da sua conta. E sem um puto pila na carteira, vê o ponteiro do tanque de gasolina chegando à reserva.

Essa coisa do som é engraçada. É como um videoclipe sem música. Tire o som da TV e comprove como a magia evapora. Pois então, imagine um jogo de truco sem oralidade e gestos? Impossível, não é?

Agora está quase chegando a sua casa. O som do pisca-pisca o faz sorrir. As mãos ásperas deslizam pelo volante e isso lhe causa uma sensação boa. Aproxima-se da entrada do portão. Abre o cadeado e solta a corrente. A cancela está aberta. Entra e estaciona o veículo. Desce do carro, bate e porta com força e aciona o alarme. O golfinho diz ok. À noite, o som se propaga como mais facilidade. As botinas batucam no chão. Retorna e fecha aquele amontoado de arame e metal que faz um barulho característico quando engata no seu lugar. Transpassa a corrente no portão e afivela o cadeado nos elos. Percebe que sob a sombra da lua cheia tudo que o cerca parece estar imantado com uma luminosidade elegante.

Fica um tempo escorado no muro que divide o terreno. Balança o molho de chaves e escuta o tilintar reverberando além. Ele sabe, aquela coruja que sempre visita o pinheiro mais alto do seu pátio deve piar em instantes. Dizem que é mau agouro. Na Roma antiga, poucos minutos antes de morrer, um bicho desses pousou na janela do quarto de Commodus Aurelius.  Por outro lado, reza a lenda que Gengis Khan foi salvo por uma. Já esse sujeito, que recostado ao muro, faz desenhos no ar com o molho de chaves pirigeteando como guizos de uma cascavel, parece não ter pressa de entrar.

Tenho a impressão que apenas quer ter certeza que o pesadelo ainda não terminou.  

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