Salve a Banda do Tio João

Uncle John's Band, ou Grateful Dead. Foto: Warner Music

Crônica #43 publicada no Diário de Santa Maria 17.05/2013 | N° 3455


Liga o carro e não fala nada. Ela também permanece calada. O ronco do veículo é sufocado pelo player que toca Uncle John’s Band, do Grateful Dead. Faz tempo que esse CD não volta para o porta-luvas. Impressionante saber que Workingman’s Dead, um dos melhores discos de country rock de todos os tempos saiu da cabeça dessa trupe californiana. Muito ácido naquelas cucas para exprimir tamanha lucidez e maturidade. Enquanto o garota fita o nada, aquele homem olha negligentemente para o trânsito, Ninguém naquele quadro emite alguma conclusão ou desabafo. Eles pareciam estar esgotados. E, muitas vezes, uma boa música cumpre a função de preencher os espaços vazios. Digo mais, com uma trilha sonora apropriada, certamente não precisamos falar banalidades, apenas para movimentar os lábios. O tal dizer por dizer. Além do mais, em alguns momentos, certas canções permitem que o silêncio não exerça seu poder de constrangimento



Voltando ao som do Dead, a letra tem passagens interessantes escritas por Robert Hunter.

“Você vai vir comigo, você não quer vir comigo? Eu preciso saber se você virá. Como o sol da manhã você vem e como o vento, você se vai”. Chega com o vento e parte com a poeira.

E vai e vem, recebemos outro convite:

“Venha ouvir a Banda do Tio João”.

Ok. A bandinha segue no seu compasso de espera, como se tivesse a capacidade de fazer o sol surgir milagrosamente entre nuvens incorruptíveis. Imagens inofensivas de algodão ou rochas milenares? Lá fora, um dia cor de chumbo é pincelado pela garoa fina. Igual uma banda marcial bem ensaiada, o limpador de para-brisas desembaça o vidro dianteiro. Ele deseja que seus pensamentos e culpas também possam ser desembaçados por uma máquina dessas. Uma peleia danada esse troço dentro dele! Mas não tem jeito, a máquina humana é uma engrenagem complexa demais para ser compreendida em sua totalidade. Um enovelamento que nunca será desembaraçado ao ponto de abolirmos todos os nós que atravancam as coisas.




A cena continua pesada. Abre os vidros para que o ar possa ganhar alguma leveza. A mulher veste um casaco branco, quente demais para um início de tarde batendo na casa dos 25°C. Em poucos minutos, a frente fria derrubaria as temperaturas. Mais uma vez ela estava certa.

Chegando ao destino, retira as malas do carro e dá um beijo no rosto dela. A garota não diz absolutamente nada. Os olhos nem ao menos se fecham. Isso talvez indique algo ruim. Pelo retrovisor, fica olhando ela atravessar a rua, até desaparecer do seu campo de visão. Poucas vezes se sentiu tão triste. Bem, os primeiros dias são os dias mais difíceis. Sempre são.

Não adianta ficar se lamentando quando a vida é uma avenida ampla. Volta pra cabeça do som e coloca a bandinha do Tio João para trabalhar novamente.

Comentários

  1. Olá...liguei o pc, ouvir uma música, ler algo que acalme os sentidos e dê consolo na alma!...Ah, estas almas irriquietas...gostei da crônica e da bandinha*.....Valeu, abração, vamu embora!!

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