sexta-feira, 31 de maio de 2013

A sorriso de Helena

A Bailarina e o Violonista. 

Crônica #45 publicada no Diário de Santa Maria 31.05/2013 | N° 3467

Nada como o tempo pra nos fazer entender o incompreensível. Uma coisa é certa: você pode ser seu melhor amigo ou o pior inimigo. No momento, sinto aquela estranha sensação de que preciso separar o joio do trigo. Principalmente dentro de mim. Aquela historinha do anjo e demônio se tapeando nos ombros. Cada um deles soprando epifanias; capeta no ouvido direito, a entidade da auréola no outro extremo.

Num domingo desses, enquanto organizava meu acervo de LPs em meio a essa pendenga, me lembrei de uma frase de Liberato Vieira da Cunha, do livro A Companhia da Solidão: “viver é perder pessoas”. Sim, isso é batata! Amigos, amores, parcerias... Eles vêm e vão. E por mais que a sensação de vazio nos acompanhe por um tempo, essa danada de vida encardida sempre se renova. Isso não tem jeito. Algumas peças continuam fixas no tabuleiro, olhando pra você e piscando o olho num sinal de “ok”. Outras, desaparecem e te sabotam. Ou você mesmo faz isso. Toda a vez que perco uma batalha, tenho certeza, no andar da carruagem, ao longo do traçado um bocado de coisas boas irão acontecer. Aprendizes. Isso é que somos.

Trecho de "A Companhia da Solidão", de Liberato V. da Cunha. 
Há alguns dias, visitei uma amiga. Vamos chamá-la de Helena. Ela tem quase 70 anos e é um exemplo de vigor e sabedoria. Faz um tempo que rompeu um casamento de 40 anos e começou a pintar. Suas obras ilustram as paredes da casa onde vive. Fugindo de uma relação falida, ela justificou a saída estratégica pela fato de não estar contente em ter (apenas) um companheiro. Ela queria um amor. Olho para o lado e vejo dois ou três exemplos de pessoas que vivem com um “companheiro(a)”. Helena optou por ficar sozinha. Pelo menos por um tempo.

Em sua nova vida, fez exposições, conquistou novas amizades, viajou pra caramba e começou a namorar. O cara poderia ser seu filho. No entanto, eles se entendiam muito bem. Infelizmente o namorado não compreendeu a liberdade de Helena, e começou (de várias maneiras) a cerceá-la do direito de ir e vir. Até que certo dia, em visita a sua dentista, ouviu a seguinte frase: “O que aconteceu com teu sorriso?”. Ao constatar que havia perdido o brilho e a alegria, Helena rompeu o relacionamento. Ela busca a tranquilidade e um sorriso pleno. E essa serenidade transpira nas ambiências da casa dela.



Naquele gelado início de noite, tomando um delicioso café, sentado num sofá confortável e ouvindo seu relato, cantei um pedaço de Todo Amor que Houver Nessa Vida, de Cazuza: “Eu quero a sorte de um amor tranquilo / Com sabor de fruta mordida”. Helena de bate pronto rememorou A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran: “Hoje eu quero paz de criança dormindo / E abandono de flores se abrindo. Quero a alegria de um barco voltando / Quero ternura de mãos se encontrando / Para enfeitar a noite do meu bem”.

Helena é uma mulher sábia. Ela é sua melhor amiga. Eu preciso viver um bocado mais, perder uma pá de outras pessoas, para só assim navegar num mar de serenidade semelhante àquele. E quem sabe, igual a ela, só assim, voltar a sorrir de verdade.

2 comentários:

  1. O olhar do musico e do poeta são plenos de sensibilidade, percepção e de uma generosa descrição sobre o que vê... Márcio Grings. Observo tua trajetória tranquila, suave, sem alardes...a única coisa que retumba é o teu talento!

    ResponderExcluir