Pode colocar na minha conta




Crônica #39 publicada no Diário de Santa Maria 12.04/2013 | N° 3425


Já pensou que no telefone celular que você usa nesse exato momento há tecnologia criada por Steve Jobs? Computadores pessoais, filmes de animação, música, tablets e publicação digital: grande parte dos recursos tecnológicos que usufruímos no nosso dia a dia, saiu da cuca desse sujeito que morreu em 2011, aos 56 anos.

‘Tava me ensaiando faz tempo pra desbravar a biografia do mago da tecnologia. Tempos atrás, um amigo que leu o livro, vivia me relatando passagens específicas da história de Jobs. Enfim, comecei a ler e cá estou imerso na vida e obra do homem. Como ainda folheio o início das mais de 600 páginas do tomo escrito por Walter Isaacson, um fato de cara me chamou a atenção: o lance de Jobs ter sido entregue à adoção por sua mãe.
Steve Jobs no colo do pai.
Ele foi adotado, e na casa que o acolheu, os novos pais nunca esconderam esse episódio dele. Pelo contrário, Steve sempre soube – em primeiro lugar – que era uma criança especial, carinhosamente escolhida para fazer parte do então humilde clã dos Jobs. E isso definiu tudo. Sua família foi decisiva para torná-lo o homem e o profissional que conhecemos.


Nosso berço, o lugar de onde viemos, determina muita coisa na gema de cada um de nós. E nessa amálgama familiar, muitos dos hábitos, crenças, costumes e a forma como enxergamos o mundo são desenhados nesses primeiros anos de caminhada. Partimos do princípio de sermos gerados por uma cepa genuinamente boa. E quando falo de cepa, não me refiro somente à linhagem sanguínea, falo também de osmose pelo convívio mesmo. Por isso recorro ao bordão popular: “Pai é quem cria”. Paul Jobs, pai de Steve, é a prova disso. Daí, quando aos poucos, vamos deparando com certos valores e crenças. Por mais que haja percalços, o preparo que recebemos de nossos progenitores naturalmente nos fornece gás e condicionamento para superá-los. E assim, nos sentimos fortes o suficiente para esmurrarmos uma parcela significativa dessas dificuldades. Comigo foi assim.

Fico pensando: que legado eu vou deixar para meu filho? Que tipo de pai eu sou frente aos olhos dele? Qual a primeira coisa que vem a mente do meu garoto quando ele se lembra de mim? Imaginando a resposta, instintivamente peguei o telefone e pensei: “Vou indagar isso pro guri”. Quando ele atendeu, titubeei. Acabei combinando um passeio. Provavelmente nunca vou questionar nada a respeito dessa dúvida.

Olhando pela lente de um pai coruja, lembro-me do quanto fiquei orgulhoso quando ele começou a se interessar pelo som dos Beatles. Essa herança tem endereço certo: o toca-discos aqui de casa. Meu filho foi mordido pelo besouro, e fui eu quem deixou o bichinho passeando pela sala. Pode colocar na minha conta, eu tenho orgulho disso. E não há antídoto que desfaça o estrago (do bem) deflagrado pela picada desse inseto. 
        

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