A maçã de Vitinho




Crônica #38 publicada no Diário de Santa Maria 05.04/2013 | N° 3419

Ele acorda cedo. Arregaça a cortina do quarto e, assim, favorece o terreno para que a luz do sol banhe aquela peça com as cores da manhã. Olha para sua Fender Telecaster vermelha, que o pai negociou com um Comissário de bordo da TAM, e parece ainda não acreditar que ganhou de lambuja aquele modelo tão desejado. Ele carinhosamente batizou seu instrumento de Big Apple. Liga o PC e procura um som específico do The Byrds. Encontra rápido, já que todos seus arquivos digitais estão precisamente organizados. Lembra-se da forma absurda com que Clarence White, guitarrista do grupo, bateu as botas. O músico foi morto por um motorista bêbado, logo após uma apresentação, enquanto guardava seu equipamento em um carro.

Liga a sua Maçãzinha num cubo Princeton e toca simultaneamente o riff de Fido, segunda faixa do disco derradeiro da banda californiana nos anos 1960. Tocando em cima do que vaza pelos alto-falantes do PC, fica brincando de encontrar os acordes. Ele está quase lá. Descobriu na rede que parte do segredo do homem está no B-Bender, um efeito que ele usava para deixar os bends com sonoridade de um pedal steel.


A mãe grita da cozinha que o café está na mesa. Vitinho pede para que ela traga a refeição até o quarto. Ela diz: “Sem chances”. Ele pensa: “O café vai esfriar”. O que será que impulsiona um garoto de 16 anos a se ligar em coisas antigas e aparentemente atreladas a músicos profissionais? Nem mesmo ele sabe de onde veio essa fissura. Nada ligado à herança familiar. Pescou alguma coisa no YouTube, leu outro tanto em blogs e sites especializados, trocou figurinhas com um amigo, ganhou o primeiro violão aos 12, aos 14 começou a tocar na guitarra meia boca de um primo e finalmente chegou a sua maçã madura. O garoto detesta videogame, não se liga em TV e acha um porre ter que ir ao colégio. O lance dele é tocar guitarra e ouvir seus sons antigos.

Até na escolha de seu ídolo Vitinho não é um jovem previsível. Afinal, quando os velhotes estão em pauta, ele poderia se espelhar em estrelas como Jimi Hendrix, Jimmy Page, Eric Clapton e dezenas de outros nomes do primeiro escalão de popularidade no rock. Mas afinal, quem é Clarence White? Inclusive, quando o assunto é a guitarra dos The Byrds, a grande maioria se lembra de Roger McGuinn e sua Rickenbacker de 12 cordas. Já Vitinho prefere o quase incógnito Clarence. Muitos não sabem, mas, por exemplo, Wasn’t Born To Follow, uma das músicas da trilha sonora do filme Sem Destino, tem uma das guitarras tocada por White. Isso antes dele entrar oficialmente no Byrds. Teoricamente, o guitarrista não passava de um cara contratado pra tapar um buraco. Ele pavimentou uma avenida...


 
Desliga o cubo, carinhosamente deposita a Fender na cama e ruma até a cozinha para tomar café. Antes, lava as mãos no banheiro e dali percebe que ainda consegue ouvir a guitarra de Clarence ecoando pela casa. Do corredor dá mais uma olhada na sua maçãzinha vermelha reluzindo sobre os lençóis.

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