O céu de fevereiro



Crônica #33 publicada no Diário de Santa Maria 01.03/2013 | N° 3389



Ultimamente tenho olhado para céu de uma forma mais atenta. É preciso reparar, contemplar, ficar um tempo com os olhos voltados para o horizonte. Como é bom poder assistir de graça um espetáculo dessa amplitude todos os dias. Tenho o costume de acordar cedo, sempre antes das 7h, e é inacreditável com o que ando me deparando nos últimos dias. Uma série interminável de chumaços de algodão, nuvens que bailam tontas de azulina. Minha parte preferida é ver o sol dourando a pílula no amanhecer. Nos últimos minutos da madrugada, aos poucos o Astro Rei vai semitonando a manhã com seus raios em serpentina, que disparam luzes vermelhas, rosadas e amarelas.

Na outra ponta do dia, temos o entardecer... E, Deus do céu! Fiquei viciado em admirar esses fins de tarde. O sol derretendo como manteiga num pão caseiro recém-saído do forno, desmanchando-se lentamente em cores mornas por trás dos morros. Tenho visto muitos shows desse naipe, quase sempre antecipando noites de céu estrelado. É quando me lembro de Entardecer, poema do saudoso Antônio Augusto Ferreira, que virou música na voz de Leopoldo Rassier:

Um matiz caboclo/Pinta o céu de vinho /Pra morar sozinho/Todo o pago é pouco/Todo o céu se agita/O horizonte é louco /No matiz caboclo/de perder de vista”.

Logo adiante ele diz:

“O sol poente arde/Em sobrelombo à crista/ Quando Deus artista/Vem pintar a tarde”.



Quanta sabedoria, Antônio Augusto! Em suma: sempre me vem a mente essa música/poema quando o dia recolhe suas cortinas. O hábito de olhar para o céu me derruba de verdade. Enquanto homem que sou, falível em minhas virtudes e forte em tentar evitar os descaminhos, apesar de todas as turbulências que vivemos, sim, o sol sempre brilhará para todos. Sem exceção. Basta olhar pra cima e aceitá-lo como um presente. E aí a música me recorda:

“Vai chegando a tarde/De pensar meu rumo/Alço o olhar lobuno/Mais além do poente/Onde vive ausente/Meu olhar reiuno”.


Certa vez conversei com o poeta sobre o ofício de escrever. Nunca vou me esquecer de um conselho: “Busque a simplicidade”. Antônio Augusto não gostava do falso requinte, do embuste, do artifício da erudição poética requentada pela sobrepujança plástica. Simples assim. Precisamos entender que o mais difícil, muitas vezes, é não enfeitar o jogo. Nada de fazer embaixadinhas na frente da torcida apenas para arrancar aplausos fortuitos. Sou apegado a essa linhagem que Antônio Augusto prega em sua obra. Simplicidade. Almejo ser chamuscado por esse preceito. Por outro lado, nobre poeta, não posso concordar com as últimas linhas de Entardecer:

“Amada/Amada/Por viver sozinho/Não me apego a nada”.

Sou apegado a muitas coisas. Pra começo de conversa, apesar de já adentrarmos o mês de março, sou completamente apaixonado por esse céu de fevereiro. Puro saudosismo. Que março não nos decepcione. Olhe pra cima...




Obrigado, Antônio Augusto. Essa lição de "simplicidade" eu uso pra vida!


Um autógrafo precioso. 

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