domingo, 3 de março de 2013

Até chegar a tua porta




Vejo mil maneiras de falar a verdade vejo conspirando ao meu favor & o futuro derrapando na esquina vejo a importância do efêmero & a beleza definhando graciosamente em teu rosto vejo a poesia como um exercício da vagabundagem vejo um filme em cada linha que escrevo & um livro impresso na textura de um guardanapo vejo reconhecimento por aquilo que eu fiz & um justo pagamento pelo meu suor vejo um olhar tranquilo no retrato de Ferlinghetti vejo o planeta azedando como leite talhado & bombas silenciosas destruindo qualquer coisa vejo um novo recomeço com o anunciado fim dos tempos vejo a vida germinando no concreto vejo poder nos gestos de um bebê & teu gozo delirante serpenteando em minhas pernas vejo sinais de fumaça em baforadas de cigarro vejo geleiras glaciais dentro de um cubo de gelo & duas frenéticas mariposas dialogando com a lâmpada quente vejo Tex cavalgando seu cavalo de pau & Fellini dirigindo meu próximo sonho vejo um cadilac novo em folha estacionado na cabeceira de minha cama & um pomar de maças amadurecendo num dedal vejo a parede do banheiro transpirando ofegante & as cores do arco iris na água que sai pela torneira vejo minha imagem como um registro do passado vejo o presente rabiscado para sempre vejo uma nova espécie de herói caminhando pela América vejo a língua portuguesa como idioma universal vejo a existência como um simples sonho & um pequeno devaneio transformando minha inevitável jornada até a tua porta.         

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