Copo vazio




É engraçado quando escrevemos sobre determinado tema e não nos damos conta, exatamente, daquilo que estamos falando. Escrever, muitas vezes, não passa de um processo intuitivo. Um fluxo, como água vinda de uma fonte nem sempre cristalina. Tem um poema que escrevi faz tempo que diz assim:

A água sempre volta a escorrer pela encosta. Gosto de ver o céu refletido nas poças. A água brota em uma nova vertente. O corpo cansado no bafo do banho quente. A água descendo a beira da rua como um rio caudaloso. O cheiro da chuva numa tarde agosto [ou dezembro]. A água fria que desperta o rosto em frente ao espelho. A imagem embaçada me deixa mais feio.

O universo circula dentro do meu corpo. Sou um copo vazio, bebido ainda há pouco.
A ideia original desse pequeno texto era falar do inevitável recomeço, e, de como, quer queiramos ou não, tudo retorna de novo aos eixos. Certas vezes não, é claro, mas a tentativa da natureza (e da natureza das coisas) é sempre acomodar os penduricalhos em suas respectivas gavetas. E nas últimas linhas do poema acima, tentei deixar claro que apesar do mundo continuar a girar, apesar do contínuo movimento das marés que teima em se exercitar com invejável regularidade, mesmo assim, a sensação de vazio é inevitável. Sorte nossa que independente do estado de espírito de cada um, sim, o sol continuará brilhando e a lua cheia vai iluminar outra noite escura. E essa insistência dos astros nos esbofeteia todos os dias.  
Não é fácil terminar algo no qual apostávamos todas as nossas fichas. Por exemplo, muitas vezes falhamos. Mas assim é a vida. Viver não é para os fracos. Ou é, sei lá...A danada da coceira sísmica de uma alma inquieta é algo que, cedo ou tarde, movimenta a placa tectônica debaixo dos nossos pés. Só quem já passou por um terremoto dessa magnitude para entender o que é esse troço! Não tem outra, dominantemente somos nocauteados pelas circunstâncias. E lá vamos nós, zonzos, com algumas escoriações, capengando, juntando os cacos e embarcando em outra nau a desbravar novos mares.  
“Sou um copo vazio, bebido ainda há pouco”.
De qualquer forma, precisamos esvaziar (e limpar) o copo sujo, para só então, enchê-lo com água limpa. Em outro viés, não dá pra descartar o aprendizado, o que passamos adiante e o que recebemos. Sempre haverá o lado positivo da tragédia. Assim vamos esfoliando nossas imperfeições e aprendendo com as situações, conflitos e adversidades. Mas sabe o que sempre reservo nas minhas memórias, quando encontro conforto e abrigo após a tempestade? As melhores lembranças. Tudo aquilo que vivi e levarei para sempre dentro do meu coração. Sabe quando nos lembramos de algo marcante e começamos a sorrir intimamente? É disso que falo, é isso que me refiro.


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