sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Apenas o tempo





Crônica
 #30 publicada no Diário de Santa Maria 08.02/2013 | N° 3371


Não adianta nem tentar: ele não consegue parar de olhar para o relógio. É estranho como o movimento entediante dos segundeiros o deixa relaxado. Tranquilo. Como um médico avaliando um paciente, ele aproxima o pulso do ouvido e assim consegue ouvir os batimentos cardíacos da máquina. 60 batidas por segundo. Além disso, ele gosta de escutar o bip dos 15, 30, 45 minutos e, principalmente, o sinal da hora cheia. É como se o bip tivesse a capacidade de mantê-lo alerta, em estado de prontidão. Mesmo que pareça contraditória a sua atitude, aquele plantonista em tempo integral consegue relaxar, ele apenas não cogita a hipótese de tirar os olhos do relógio. Isso nunca! Acredita que a inofensiva mania seja impossível de importunar alguém. Quem o conhece até já se acostumou a vê-lo com os olhos vidrados no relógio de pulso. De tempo em tempo, acaricia o vidro embaçando-o com o dedo indicador, para logo depois desembaçá-lo em sua camisa.

Fica pensando no inexorável efeito do tempo na vida de cada um e o quanto tudo pode mudar em apenas uma volta do ponteiro pelas 12 marcas – em negrito – no relógio. A cada novo movimento, aquele homem pode renascer, morrer, sobreviver, discordar, perder e ganhar, naufragar em ilusões, realizar sonhos, discorrer em erros crassos ou comemorar acertos. A cada novo minuto, uma decepção novinha em folha o acorda para o futuro, uma recordação aleatória o lembra de um tempo passado que não sai de sua memória. E não irá sair.

Cenas intermitentes projetadas dentro de si. Basta fechar os olhos e lá, dentro de sua cabeça, rola um longa-metragem em widescreen, uma seleção dos melhores momentos ao lado de quem ele ama. Um top 10 dos hits que embalaram sua passagem pelo planeta até aqui, afinal, quem não gosta de um bom flashback? E, apesar de todo esse rol de sensações e sentimentos cruzados, o relógio não para. Na felicidade e na tristeza – o tempo não para. Encosta novamente o pulso no ouvido esquerdo e abre a contagem. 60 batidas por segundo. Ah, se tudo fosse tão rigoroso e certeiro como os movimentos sincopados desses ponteiros. Ele recorda o tique-taque do relógio de parede na casa da avó: era como se o pêndulo equalizasse o ritmo da própria família a cada badalada.

Em uma situação difícil, quando somos colocados à prova, quando as paredes vêm abaixo, após um baque violento, depois do grande estrondo, ele olha para o relógio e relembra: de uma forma ou outra, o mundo continuará a girar. Quer queiramos ou não. É só olhar para seu pulso. Os ponteiros da engrenagem não param de contar o tempo. Mesmo esfolado pela dor, ele descobrirá um novo ritmo. Por isso, precisamos sacudir a poeira e retornar ao fluxo. Como as marés, o ciclo lunar e tantos outros movimentos.


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