O Ermitão




Crônica #22 publicada no Diário de Santa Maria 14.12/2012 | N° 3325


Um amigo me pediu, faz algum tempo, um texto para a orelha de um livro sobre cinema que a Faculdade de Comunicação Social da UFSM estava preparando. Mandei o material, mas não sei se o tal livro saiu. No entanto, o tema colocou minha cuca para funcionar. Certas vezes você se pega pensando em um filme ou outro. Isso acontece com certa frequência. Na verdade, existem cenas que estão tatuadas definitivamente na memória.

E tem cada figura. Um take: o final trágico e pontuado de humor de Butch Cassidy & Sundance Kid. Outra: a dança do casal apaixonado que não pode materializar o romance em O Encantador de Cavalos, ao som de Soft Place To Fall, de Allison Moorer. E personagem: “Dude” Lebowski de Jeff Bridges é uma lenda. E Jeremiah Johnson de Mais Forte Que A Vingança, faroeste de Sidney Pollack, uma espécie de caçador solitário que dialoga com os escritos de Thoreau.

Vez ou outra você não se pega imitando atores e sequências que conhece de cor? A vida imita a arte ou apenas as lendas ganhando mais importância que a realidade? Na real, tudo se mistura, e essa sua doença não tem cura. Bukowski já dizia: “Ficção é a vida melhorada”. Então, nada como dar play e começar uma nova viagem.

Você cresceu vendo filmes com dublagens terríveis na TV aberta, gostava de ouvir o barulho da fita VHS ser engolida pelo vídeo-cassete, virava a noite revendo clássicos em preto-e-branco na TV a cabo e cansou de ficar seduzido pela tecnologia mentirosamente eterna dos DVDs. Você está careca de saber que, depois do Blu-ray, o mundo capitalista vai inventar uma nova tecnologia para rapar os trocos da sua carteira e fazê-lo comprar o mesmo filme três ou quatro vezes!

No fim das contas, você baixa todas as semanas gigas e mais gigas de filmes. Dramas, comédias, suspenses, romances, aventuras e sabe-se lá mais o quê! E ainda tem os livros. Livros sobre atores, cineastas, enfim, essa é sua danação, para bem o para o mal. Poucos programas superam aquilo que você faz há tempos: sentar em frente à TV e ver um bom filme. Geralmente sozinho, às vezes acompanhado, mas, por favor – que não que não lhe convidem para um churrasco com amigos chatos e todo o velho repertório de piadas sem graça, regado com todo aquele papo de “quem comeu quem”.

Fiquei sabendo que você até comprou um sofá novo, só pra poder curtir ainda mais o seu hobby. O que lhe interessa – é o som, a imagem e a palavra escrita capturada. Um ermitão – é isso que você vai virar meu caro! Um pouco de vida real lhe faria bem, sabia? Quem sabe podemos conversar um pouco sobre isso, o que acha?

Tá bom, eu espero o filme acabar...


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