O buraco da bala




Crônica #15 publicada no Diário de Santa Maria 26.10/2012 | N° 3283



Como qualquer brasileiro nas últimas semanas, foi impossível ficar abstraído de algum tipo de opinião sobre o caso Mensalão. Apesar de não ser um especialista no assunto (longe disso), acompanhei diversos momentos do julgamento pelo rádio, na TV e em sites e jornais. Além do teor de curiosidade, tipo “vamos ver como irá se desenrolar toda essa história, defesa, acusação etc.”, um dos temas que mais me chamaram a atenção foi a postura de alguns membros do Supremo Tribunal Federal. Nomes como os dos Ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski viraram personalidades nacionais. Barbosa, inclusive, caiu nas graças do povo. Não se surpreendam se o ministro virar uma das máscaras confirmadas do próximo carnaval.

Dia desses, ouvi o desembargador Jayme Weingartner Neto conversando com André Machado e Rosane de Oliveira sobre alguns aspectos dessa exposição intermitente. Em seu relato ao programa Atualidade, da Rádio Gaúcha, Neto falou justamente sobre uma sugestão de alteração no estatuto da magistratura. A constituição diz que cabe ao STF mandar para o congresso um projeto de lei complementar que encampe novas regras na magistratura do país. Isso levando em conta o capítulo ético e de como os ministros devem se comportar frente aos veículos de comunicação.

Inegável, sim, os caras viraram verdadeiras estrelas. Inclusive, com divisão de opiniões sobre o discurso do ministro Barbosa, com direito a demonização (ou beatificação) de sua postura rígida no julgamento. E falo também de uma postura de confronto frente aos seus próprios colegas, com o uso de palavras e expressões que colocaram em xeque a forma como os magistrados devem se portar frente às câmeras de TV.

Quanto aos acusados, a opinião pública parece dividida. Uns acreditam que haverá punição justa aos réus, outros fazem piada sobre o destino dos que foram julgados como culpados. O curioso é que, dentro de um processo criminal, muitas vezes a verdade tem um caráter provisório. Isso por que, quase sempre, na visão da mídia, um crime, ou a crônica de um crime, vira um ato de literatura, porque, de alguma maneira, quando o poder judiciário termina de dizer como aconteceu o fato, como no caso do Mensalão, o poder da memória pertence à sociedade e não a quem cometeu o ato ilícito. É como que, ao refazermos os acontecimentos, apurarmos uma verdade que nos serve apenas para aquele momento. Afinal, existem muitas verdades, dependendo do ponto de vista de quem nos relata. Ao adentrarmos no território do maniqueísmo, percebemos que o buraco da bala é mais embaixo.

Ainda sobre os réus, me pego pensando em como funciona esse jogo de acordos e viabilizações no universo político. Acredito que a compra de certos tíquetes possa dar direito a uma viagem sem volta. Se essa estrada leva ao paraíso ou ao inferno, muitas vezes só podemos nos dar conta quando os dados já foram lançados. E aí, grande parte das vezes, já é tarde.

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