O apito do trem



Crônica #13 publicada no Diário de Santa Maria 12.10/2012 | N° 3271

Em grande parte do Brasil, vivemos em um tempo em que o trem de passageiros faz parte da lembrança. Na Europa e em alguns outros lugares do mundo, locomotivas velozes e confortáveis ainda cruzam fronteiras. É uma pena que, por aqui, os trens sucumbiram à supremacia das rodovias e da politicagem. Uma região como nossa deve muito do seu desenvolvimento à expansão das ferrovias no século 20. Afinal, antes de sermos o berço universitário, éramos a Cidade Ferroviária.

Em 2006, fiz uma música com o amigo Nico Andrade. O trem está na letra. Clique no player abaixo, e continue lendo esse post com trilha sonora. "Traces of Son House" (confira a letra) saiu em "BluesMachine", CD lançado pela Red House (2007). Ouça o álbum na íntegra.

   


De onde eu moro, ainda percebo o apito dos trens de carga vindos lá da Rua Sete de Setembro. Todas as noites, quando deito a cabeça em meu travesseiro, claramente ouço a movimentação vinda dos trilhos que cruzam por lá e o mais importante: ouço o apito do trem. Sabemos que, durante a madrugada, o som se propaga com mais facilidade (profundidade), e, juro para vocês, tenho a impressão de que uma velha locomotiva se arrasta sobre os trilhos, muito próxima ao meu quintal. Delícia de som. E o mais irônico disso é que nunca viajei de trem. Não tive o prazer de ser sacolejado dentro de um vagão enferrujado ou de usufruir do conforto de uma cabine de primeira classe.

O trem é uma recordação lúdica. O mais próximo que cheguei de um foi no sítio de uma tia, na periferia. Uma parte da ferrovia ainda cruza bem em frente à casa dela. Lembro-me de colocar pedras sobre os trilhos, isso poucos minutos antes de um trem deslizar frente aos meus olhos, na expectativa de poder descarrilar os vagões. Qual criança nunca fez isso? Claro que o máximo que conseguia era ser alvejado pelas pedras, chutadas pela máquina como perigosos projéteis. Gostava de apreciar o barulho do aço rosnando no metal, assistindo de camarote as faíscas chispando como o fogo do inferno. Dava um friozinho na barriga.




O trem faz parte da minha memória afetiva. Na literatura, em muitas passagens de seus livros, Jack London nos conta sua saga pelas estradas de ferro. Ele aprendeu a saltar dos trens de carga e, neles, cruzou os Estados Unidos. Em muitas histórias, narra suas aventuras pelas linhas férreas da América, denunciando a truculência sanguinária dos guarda-freios. Sobre esse tema, tem ainda Bound For Glory, filme em que David Caradine revive o músico Woody Guthrie, que tantas vezes pegou carona em trens de carga. Tem também aquela cena do assalto ao trem pagador em Butch Cassidy e Sundance Kid, com Newman e Redford. Já na música, o trem é um tema recorrente. Além disso, sou vidrado no som da gaita de boca, instrumento que facilmente emula o barulho de um apito das velhas fumacentas, e é capaz de simular o traquejo dos vagões deslizando sobre dormentes como uma fascinante Besta de Ferro. Longa vida ao trem de passageiros, que sucumbiu à truculência política, mas sobrevive nos livros, filmes, discos (na Europa) e principalmente na minha memória.
    

Comentários

  1. Listen to that Duquesne whistle blowing...

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  2. Outro dia dormi em Cruz Alta, e lá existe o transporte de trem de carga da América Latina Logística. Ouvia o trem pasar a noite toda. É ujma sensação divertida viver numa cidade onde o trem existe ainda.

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