Enchente de São Miguel




Crônica #10 publicada no Diário de Santa Maria 21.09/2012 | N° 3253

Antes de abrir os olhos, caiu na piscina. Quando as pálpebras se movem, ele captura o último facho de luz refletido na superfície. É muito fácil ser arrastado para o fundo sem um colete salva-vidas. Gostou de ouvir o barulho dele se chocando contra a água. Rapidamente, as roupas ficam encharcadas. Lentamente o corpo foi descendo. Elmo não sabe nadar. Enquanto afunda, um filminho em “fast-forward” passa pelo seu cérebro. Quarenta anos em quatro segundos. Uma canção de despedida? Pode ser aquele som do ultimo álbum de Gram Parsons.

In my hour of darkness / in my time of need / Oh Lord, grant me vision / Oh, Lord, grant me speed”.







Isso mesmo, Gram! Não parece uma prece? Escuridão, necessidade de ajuda, visão e velocidade para superar os obstáculos. Finalmente o corpo chega ao destino. Lá está ele, bem no fundo da piscina. Permanece impávido, imóvel igual Ben Braddock em A Primeira Noite de um Homem. Só que ele está sem equipamento de mergulho. A água começa a adentrar os pulmões. Em pouco tempo, estará morto. Não se debate, não resiste, ele não tenta intervir contra o destino.

Kábrummm! Um trovão rompe a madrugada, e Elmo desperta de sobressalto. Corpo suado, coração pulsando um pouco mais forte... no entanto, acorda tranquilo. Lembra-se do acontecimento recente no Mundo dos Sonhos e conclui que o suor, provavelmente, não passa de um resquício do pesadelo. Cinco dias de chuvarada, e São Pedro continua mandando água lá de cima. Afinal, quando se está bem abrigado, ainda mais confortável e debaixo dos cobertores, o barulho da chuva fica bem mais agradável de ouvir. Elmo, particularmente, gosta do tiquetaquear das gotas que escoam do telhado e chamuscam a veneziana. Os antigos chamam essa época do ano, que marca a transição do inverno para a primavera, de Enchente de São Miguel. Setembro é, historicamente, um mês castigado por intensas precipitações no Rio Grande do Sul a ponto de, no vocabulário popular, ter sido criada essa expressão, em alusão ao dia 29 de setembro, que marca este arcanjo.

Levanta da cama, vai até a cozinha, e toma um copo d’água. Lá fora, com certeza, por ter ouvido movimentação vinda de dentro da casa, a gata mia reclamando algo. Provavelmente deve estar molhada e com frio. Abre a porta dos fundos, e o bichano entra e se acomoda num canto da cozinha. A chuva não dá trégua. Volta para a cama e pensa sobre o sonho. Alguns acreditam que sonhos funcionam como espécies de presságios. Quem sabe seja alguém de outra dimensão nos soprando recados? Elmo nunca gostou de ficar encasquetando. Apenas fecha os olhos e torce imensamente para que o sono chegue o mais breve possível. Só assim, um novo sonho (ou pesadelo) o arrastará para outro cenário. Enquanto isso a Enchente de São Miguel continua lavando os pecados do mundo.

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