sábado, 16 de junho de 2012

Eis a noite


Eis a noite em que fantasmas aporrinhadores de saco voltam a fazer barulho com suas correntes enferrujadas. Eis a noite em que a falsa modéstia detonou com minha paciência que já estava esgotada, a noite em que o telefone tocou no exato momento em que encontrei a Iluminação depois de semanas no limbo & que o toca-discos não girou pela primeira vez esse ano.

O vento sopra de uma maneira estranha.

Eis a noite em que mais uma vez fiquei de saco cheio de tudo & de todos e que o azedume me faz crer que ainda estou em conexão direta com meus ancestrais. Noite em que a bateria do celular desapareceu. Noite em que o sono vai custar a vir. Eis a porra da noite em que descobri queijo & presunto apodrecendo na minha geladeira. 


O vento assovia pela veneziana.

Eis a noite em que meu joelho esquerdo inchou com uma pancada acidental & que dois mais dois será igual a quatro só até o sol nascer. Eis a noite em que a casa ficou mais bagunçada de que nunca, noite em que a virada da chave deve ser feita antes que o próximo apagão aconteça, afinal - qualquer coisa é qualquer coisa na noite em que os gatos não ficarão pardos de jeito nenhum. 

O vento derruba as últimas folhas do liquidâmbar.

Eis a noite em que ouço foguetes de cinco em cinco minutos & que os cães estão misteriosamente silenciosos. Noite em que aqueles filhos-da-puta colocaram o velho Dixie abaixo enquanto eu fiquei repetindo a palavra “Martini” um milhão de vezes. Eis a noite em que completo uma semana sem saber se algum dia realmente irei saber de como cheguei aonde estou & pior – como vou sair daqui desse lugar que tanto desejei & agora vejo-me aprisionado como um tolo & noite na qual descobri que o que fazemos em vida ecoa por toda a eternidade.

O vento nunca me dá medo.

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