Guilherme, 11 anos – um novo fã dos Beatles

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Tem uma coisa que aprendi com as crianças. Elas têm seu próprio tempo. E não adianta forçar a barra e tentar impor nossas preferências como sendo as mesmas que movem o interesse delas. Falo disso porque na semana passada aconteceu um dos fatos mais marcantes dos últimos tempos em minha vida. Meu filho, que completa 11 anos nessa quarta-feira (08), ligou pro meu trabalho na rádio Itapema, e pediu pra eu tocar Hey Jude na abertura do programa. Sabe o que isso significa pra mim? "É um dos meus respirando o mesmo ar duas vezes!" Não importa se apenas meia hora antes, havia tocado Eleanor Rigby no Itapema Clássica, mas quando seu filho liga pra você e faz um pedido desses, é óbvio que não existe hipótese de uma negativa. Fuga de protocolo total, e assim, rolou um repeteco dos Fab Four. Esse episódio mudou a minha semana e me deixou nas nuvens... Ou melhor: ainda estou por lá!
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A ficha beatle do Guilherme caiu no final do ano passado. É que movido pela vinda de Paul McCartney ao país, e como eu estava de malas feitas para assisti-lo em novembro, em Porto Alegre, tava rolando no meu terreiro uma overdose de Macca. Há cerca de dois anos não moramos juntos, mas eu e meu filho não perdemos o contato. Pelo contrário, nos aproximamos ainda mais. Dois ou três dias por semana ele fica comigo. Como grande parte das crianças de hoje, Guilherme gosta de divertir com jogos de computador. Só que temos um acordo: ele pode jogar durante um tempo determinado, mas o áudio do joginho on-line fica off. É aí que entre a “lavagem cerebral do bem”. Enquanto o garoto fica em frente ao PC, eu coloco rock and roll no player. E durante o mês de agosto, setembro, outubro e novembro do ano passado, meu filho foi exposto a muitas e muitas horas de Paul McCartney e Beatles. Resultado: percebi que em algumas semanas ele começou a cantar algumas canções. Uma delas é essa aí debaixo.
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O segundo passo dado foi ele me pedir uma seleção com suas preferidas. O terceiro foi começar a fazer perguntas, como: “Pai, por que os Beatles acabaram?”. A quarta etapa passou por uma sessão de vídeos. Em quinta instância Guilherme acompanhou ao show do Rio no último dia 22 de maio. Isso, graças a um portal de internet que disponibilizou ao vivo aquela apresentação. Foi ali que meu filho se emocionou com "Hey Jude". Como não estávamos juntos, durante grande parte da transmissão falamos por telefone, quase entre uma música e outra. E então, chegamos ao dia 30 de maio, quando o guri ligou pro meu celular e pediu a canção assinada por Lennon & McCartney. E ele não parou por aí. Guilherme quer ler uma biografia de Paul.
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Voltando um pouco no tempo, é fácil perceber que ele cresceu ouvindo meu acervo. Blues, jazz, rock de todas as linhagens e aí vai. Eu nunca fui “crianceiro”, então, quando ficávamos sozinhos, eu usava do meu vernáculo para promover a aproximação entre pai e filho. Comecei a inventar histórias baseadas na vida de artistas que admiro. Robert Johnson, por exemplo, virou “Robertinho Johnson”. Ele ficava vidrado com minhas narrativas. Se alguém perguntasse pra ele aos quatro anos, o que gostava de ouvir, ele dizia: “Willie Nelson e Robertinho Johnson”. E posso jurar - ele atá reconhecia algumas canções.  
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Apesar da jogada ensaiada, eu achava aquilo o máximo! Quando meus amigos iam a minha casa, ele caminhava até minha estante e dizia a quem estivesse por lá: “Oh, aqui ficam os discos do Bob Dylan do meu pai. Não pode mexer, ta?”. Ou franzia a testa e proclamava: “Meu pai me disse que todos esses discos um dia vão ser meus!”. Lembro que o menino detestava quando alguém levava algum LP ou CD emprestado. E assim ele foi crescendo. Nos anos seguintes, devido a influências externas, de coleguinhas de aula, dos primos, da TV e de todo um mainstream preparado para deturpar o gosto musical dos jovens, aos poucos Guilherme parecia se afastar do mundinho particular que eu havia construído para ele. Musicalmente falando, nunca mais forcei a barra. No fundo sempre acreditei que em algum momento, àquela sementinha adubada com tanta dedicação e carinho, iria germinar firme e forte. Como realmente germinou.
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Nesse dia 8 de junho, Guilherme fez 11 anos, mas quem ganhou o presente foi o pai dele. Feliz aniversário, meu filho! Ah, e não posso deixar de agradecer a John, George e Ringo, e em especial ao cara que fez a principal trilha sonora dessa história. Valeu a mãozinha, Paul!
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Ah, mais toques rápidos. Primeiro que pesquisando no calendário beatle descobri que Good Day Sunshine, canção que abre o lado B de Revolver (1966) foi gravada no dia oito de junho daquele ano, no estúdio Abbey Road, em Londres.
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No ano seguinte, em 1967, sete dias após o lançamento de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, os Beatles chegavam ao primeiro lugar da parada britânica em 8 de junho daquele ano.

 

E por último, Voltando a "Hey Jude", não dá pra não falar da história que está nas entrelinhas da canção. Em junho de 1968, quando Paul ficou sabendo que John havia se separado definitivamente de Cynthia, sua primeira mulher, para demonstrar apoio à mãe e ao pequeno Julian, filho de cinco anos do companheiro de banda, Paul pegou seu carro e foi até a residência de Cynthia levando uma única rosa vermelha. O beatle costumava usar o tempo que passava no carro para trabalhar em músicas novas e, nesse dia, quando retornava de sua visita, ainda com a incerteza do futuro de Julian em mente, ele começou a cantar “Hey Julian”. O músico improvisou uma letra sobre o tema de conforto e segurança. Depois, Paul trocou o nome “Julian” por “Jude”, por achá-lo mais sonoro. Esse foi o início da história da canção que foi sendo maturada aos poucos até ser concluída em 1° de agosto do mesmo ano. Hey Jude foi o single de maior sucesso de toda a carreira dos Beatles. Chegou ao topo das paradas no mundo todo e, antes do fim de 1968, mais de cinco milhões de cópias tinham sido vendidas. Em 2010 Hey Jude passou ao meu hall particular das canções inesquecíveis.
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Comentários

  1. Tá na minha trilha sonora, eternizada! Eu era 'ninada' pela minha mãe e minha prima com Hey Jude... não tem como não lembrar da infância...primeiro pela nostalgia que me remete a música, também pela história da letra... e ainda mais depois desse post. Parabéns, Grings! Beijo.

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  2. Valeu o comentário, Lici! A magia dos Beatles e suas histórias são infindáveis. Bj

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  3. Tu conhece minha angústia pelo fato do Gabriel ainda se render às "influências externas, aos coleguinhas de aula, dos primos, da TV e de todo um mainstream preparado para deturpar o gosto musical dos jovens", mas concordo contigo. Eles têm o tempo deles.
    E uma coisa me orgulha... quando ele ainda tava na minha barriga, eu ouvia Hey Jude direto. Meu irmão tocava no violão direto. E a gente sempre cantarolava essa canção lá em casa. Quando o Gabriel nasceu, foi a primeira coisa que ele ouviu quando chegou em casa. E mesmo muito pequeno, bastava dar o player nessa música e os olhinhos espertos do meu filho procuravam a origem daquela melodia. Essa é a minha sementinha. Que ela germine logo!!

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  4. Faço idéia do quanto isso te deixou feliz!Parabéns pelo belo gosto do filho.

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  5. Pai,tenho orgulho de ser chamado de seu filho,não sei como te chamam Marcio,Grings ou outros modos mas eu te conheço como Pai,um grande amigo para todas as horas que nunca vou abandonar.Nunca vou te deixar sozinho, sempre vou te acolher e te dar carinho.Pai te amo!!!!!!!!!!

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  6. Este é o Guigui! E o papai dele (que é o mesmo aí do lado rsrs!). Que Deus te abençoe, Guilherme! Bjs, "Nonoca".

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  7. Muito boa essa história. Divertida e ao mesmo tempo melancólica. Bonito de ler.
    Abraços

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  8. quero um filho assim!

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  9. demais Marcio!!!!pra nos que somos fans dos 4FAB me fez arrepiar!!!!abrazos!!!!ah y feliz aniversario a Guilherme!!!!!Phil!!!

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