Quem no mundo não conhece esse rosto?

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Escolher uma biografia é absorver passagens de um personagem real do qual queremos conhecer mais sobre sua vida. Nesse sentido, a escolha recai mais sobre o 'persona' em si do que ao livro que poderemos ler, visto que um mesmo sujeito pode ter sua vida biografada por mais de um autor. Eu li muitas biografias ao longo de minha vida, mas a história de Ernesto Guevara de La Serna sempre foi uma das minhas preferidas. Tirando os Estados Unidos da América, diga pra mim caro leitor - quais rostos aqui do continente são reconhecidos instantaneamente em todo o planeta? Pelé, Bob Marley e Che são nomes que me vem a memória de 'prima'.   
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Ler Che Guevara, Jorge G. Castañeda - Cia das Letras, 632 pgs, não é uma tarefa fácil. A vida de alguém como Che é difícil de ser sintetizada e suavizada. E o livro é repleto de contextualizações históricas, vai e vens e personagens envolventes. Não há palavras que definam a intensidade e a paixão pela revolução do filho da Dona Célia. O Argentino que percorreu o mundo e participou de uma das mais emblemáticas Revoluções do século XX, tentou repetir o feito na África e iniciar a Revolução por toda a América Latina a partir da Bolívia deixou como herança aos povos subjugados pelo Imperialismo, aos jovens rebeldes, aos que lutam por uma sociedade mais justa, a esperança. Foi transformado em mito antes mesmo de sua morte, mas foi ela quem trouxe à juventude dos anos sessenta - os anos da rebeldia, dos Beatles e Stones, Woodstock e Altamont, da luta pela paz e do falência dessa expectativa de um mundo justo. Mas esse espírito messiânico continua respirando como um símbolo absoluto, que mesmo vivendo à sombra de contínuos fracassos, ainda segue respirando a todo vapor em muitas cabeças. E a figura de Che pode enunciar várias sensações, boas ou ruíns, e sempre contraditórias.  
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O livro de Castañeda é um calhamaço dividido em 11 capítulos mais as notas e referências. E como toda em toda obra, seja ela biografia ou não, o autor precisou priorizar alguns pontos para aprofundamento. Nesse caso, foram priorizados os últimos dez anos de vida do Comandante Ernesto Che Guevara. Os anos em que conheceu o caudilho Fidel Castro, fez a Revolução em Cuba e por lá viveu e foi funcionário do governo, suas excursões pela URSS – e sua progressiva desilusão para com ela -, sua passagem pela África e sua tentativa de iniciar a Revolução por toda a América Latina pela Bolívia, e sua morte, por execução em La Higuera.
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O trabalho do autor é primoroso. Castañeda utilizou fontes documentais e bibliográficas, entrevistas, relatos de amigos, companheiros, familiares, os relatos do próprio Che e outras biografias já escritas, para escrever sua obra. Em várias passagens confrontou as fontes para demonstrar as diversas versões para a vida do mito. Ele ainda comentou sobre a versão oficial defendida por Cuba e da impossibilidade (pelo menos até a escritura de seu livro) de se consultar a documentação cubana, bem guardada em seus arquivos secretos (o que me lembra os nossos arquivos da Ditadura, tão bem fechados mesmo depois de duas décadas de “democracia”). E todas as passagens da vida de Che são muito bem contextualizadas histórica, econômica e socialmente.
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Não há como não se encantar com a dedicação e a obstinação de Guevara. Depois de ler essa biografia a admiração que sentia pelo homem que sonhou um mundo melhor e tentou, repetidas vezes, tornar seu sonho realidade, cresceu muito. Esse livro é para todos que gostam de História, que admiram Che e também para todos que sonham um mundo mais justo. E Che também cometeu seus equívocos e excessos. Isso fica muito claro durante a leitura, isso sob o ponto de vista de um autor que inclusive discute o senso de justiça do protagonista.
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Pra encerrar, confira o discurso de Che nas Nações Unidas (11.12.64) O homem tinha culhões. 
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