segunda-feira, 28 de março de 2011

Ainda a espera da batida (in)perfeita


Festinha no México. Uma das fotos divulgadas do filme de Salles. Divulgação MK2

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A Geração Beat está de volta em livro, filme, documentário, CD e HQ. 2011 pode ser o ano da nova onda beat, isso porque em dezembro deve chegar às telas a versão cinematográfica de On The Road, obra maior do escritor americano Jack Keroauc


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No final dos anos 40, Jack Kerouac e Neil Cassidy pegaram juntos pela primeira vez o longo atalho pardo em busca do oeste deles mesmos. O cenário que a dupla se depararou naqueles dias, era muito diferente do nosso deliberado mundo self-service repleto de contínuas sensações de déjà vu. Atualmente, não há mais nada de novo sob o sol, só nos resta o conformismo de aceitarmos toda desmedida repetição. Já naquela era virginal em alguns excessos, Jack & Neal não passavam de cobaias de si mesmos, deliberadamente experimentando de tudo e rompendo pré-estabelecidos padrões de conduta, para logo em seguida, colocar suas experiências no papel. “Isso não é literatura, é datilografia!” Mas... “O caminho do excesso não acaba levando ao palácio da sabedoria?”. Bem, na verdade, Neil escreveu apenas um livro (O Primeiro Terço),    e apesar disso, ele se tornou o anti-herói maior daquele tempo, posicionado no topo da escala dos avatares  da Geração Beat. Sim, ele foi o mais explosivo e conturbado dos cometas humanos que já se foi noticiado - isso em uma época em que o conformismo e o bom mocismo imperavam na América branca. Entre outras coisas, o fora-da-lei Neil roubava carros apenas para dar uma banda, se relacionava com homens e mulheres, e não teve melindres em derrubar a porta dos fundos da pré-história do rock and roll. O homem foi o verdadeiro “Back Door Man” do sonho americano. 


US 285, Novo México, 1955. Foto: Robert Frank
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Por muitos anos Neil Cassidy foi imitado, decalcado aos extremos, sugado e consequentemente esquartejado pelo seu próprio personagem maior: Dean Moriarty, o herói de On The Road, livro no qual seu brother de sangue, Jack Kerouac, ganhou fama e reconhecimento. O pensamento vivo de Cassidy sobreviveu em grande parte das páginas da chamada “Bíblia da Geração Beat”. Mesmo livro que também amaldiçoou seu protagonista e insolentemente assombrou o escritor. On The Road foi publicado nos Estados Unidos em 1957 e, desde então, artistas advindos das mais diversas origens, como Bob Dylan, Jim Morrison, Tom Waits e Johnny Depp passaram a citar (e muitos dos que ainda estão vivos ainda citam) o livro como divisor de águas em suas vidas. Relatos do tipo “Eu li ‘Road’ e caí na estrada” passaram a se incorporar ao limo que envolve esse ½ século de vida mítica da obra maiúscula de Jack Kerouac. Ao fazer da carona um modo de vida, Neil Cassidy inspirou várias gerações, como também o deixou na berlinda de seu próprio alter ego. O fim da linha se deu em 1968, após ingerir colossais doses de pulque, bebida fermentada feita de cacto. Ele caiu desacordado entre os dormentes dos trilhos próximo a São Miguel Alende, no México, morrendo de insolação (e provavelmente de desolação). Seu último emprego foi ter sido motorista do chamado Ônibus do Ácido, trupe comandada por Ken Kesey que partiu estrada afora distribuindo LSD grátis de costa a costa nos Estados Unidos, embalados pelo rock psicodélico do Grateful Dead. Já Kerouac morreu de desgosto e de tanto beber, apenas um ano depois de seu amigo, odiando os hippies e renegando On The Road como se fosse o diabo correndo da cruz.
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A trinca de Ases de On The Road nas telas. Divulgação: MK2
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On The Road, o filme
- A adaptação do livro pipocou por mais de 30 anos na mão de Francis Ford Coppola, e finalmente o tão esperado longa-metragem irá ganhar a grande tela em 2011. Dirigido pelo cineasta brasileiro Walter Salles (Diário de Motocicleta), o filme já se encontra em processo de finalização. No elenco nomes como Sam Riley (Control), Garret Hedlung (Tron, o Legado), Kristen Stewart (a heroína da saga Crepúsculo), Viggo Mortensen (da trilogia O Senhor dos Anéis), Amy Adams (O vencedor), Kirsten Dunst (Homem-Aranha), além de Steve Buscemi, Elisabeth Moss, Terrence Howard e a atriz brasileira Alice Braga. O roteiro é do porto-riquenho José Rivera, velho parceiro de Salles. A produtora francesa MK2 financia o trabalho, cujo orçamento chega a US$ 25 milhões. A trilha sonora ficará a cargo do argentino Gustavo Santaolalla (O segredo de Brokeback Mountain). Desde que foi convidado por Coppola para dirigir ‘Road’ em 2005, Walter Salles percorreu os Estados Unidos, seguindo os passos de Kerouac, e reuniu material suficiente para um documentário (In the Search of On the Road), que deve ser disparado um pouco antes ou até mesmo simultaneamente ao filme principal. A trama segue o tranco original do texto de Jack: Sal Paradise (Sam Riley), aspirante a escritor de Nova York, cansado de estar enovelado em uma rotina entediante, resolve seguir os passos do novo camarada Dean Moriarty (Garrett Hedlund), um jovem trapaceiro vindo do meio-oeste americano.

Hedlund como Dean Moriarty. Divulgação MK2
Embalados pelo espírito aventureiro de Dean, e turbinados por sexo, drogas e o ritmo do bebop, a dupla parte em uma viagem de autodescoberta, muitas vezes sem um rumo determinado. Quase sempre movidos pela impulsividade de apenas seguir em frente, Dean & Sal também são aditivados por romances tempestivos e parcerias forjadas ao longo da jornada. Zanzando aleatoriamente de uma costa a outra dos Estados Unidos, indo e vindo por cidades como Nova York, Denver, San Francisco e tantas outras urbes e pequenos povoados do imaginário americano, a aventura culmina em uma longa viagem até o México.

Graphic novel ganhou edição nacional. 
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Livros e HQ - Assim como aconteceu com os The Doors e o fenômeno pós-versão Oliver Stone para a história de Jim Morrison e banda, tenho o cutuque de que o filme poderá deflagrar uma nova onda. Até por que o terreno já vem sendo adubado há um bom tempo, inclusive no Brasil. Ao longo dos últimos anos, só a editora L&PM publicou dezessete títulos traduzidos da obra de Kerouac, além de outros tantos autores vinculados à cena beatnik. Recentemente, no segundo semestre do ano passado, outra editora, a paulista Benvirá (braço alternativo da Saraiva) colocou na roda Os Beats, biografia em quadrinhos da Geração Beat. O projeto foi capitaneado pelo escritor Harvey Pekar (A história dele está no filme Anti-Herói Americano. Pekar faleceu ano passado). Com mais de 200 páginas, a graphic novel passa o rodo na geração beat, dando uma geral dos primórdios, e avançando até os dias atuais. Mas o grande mérito da publicação foi ter levantado a lebre para outros nomes dessa “tiurma mucho louca”. Além da trinca Kerouac, Burroughs e Ginsberg, escritores do segundo escalão de interesse (e não menos importantes) como Gregory Corso, Charles Olson, Kenneth Patchen, Leroi Jones, Diane Di Prima estão no livro. Também gostei da sacada de incluir no mesmo balaio de gatos artistas plásticos como Jackson Pollock e anti-músicos como Tuli Kupferberg, criador do grupo musical The Fuggs. Pollock e Kupferberg são bons exemplos de artistas totalmente sintonizados a galera beatnik. 

James Franco como Allen Ginsberg. Divulgação Rabbit Bandini Procuctions.
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O Uivo de Allen Ginsberg - Voltando ao cinema, ano passado foi lançado Howl, longa dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que tem o mérito de apresentar um dos momentos fundamentais do movimento beat nos EUA: o julgamento de Howl (Uivo) o poema de Allen Ginsberg que dá nome ao filme. Howl é uma das obras que definiram aqueles anos. Escrito em 1955, o livro contém referências a práticas sexuais que motivaram, dois anos depois, um processo por obscenidade contra Lawrence Ferlinghetti, dono da City Lights Bookstore, editora que publicou originalmente nos Estados Unidos a coletânea que continha o mal fadado texto poético. No elenco estão James Franco, Mary-Louise Parker, John  Hamm, Jeff Daniels, David Strathairn e Alessandro Nivola.


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O livro que virou disco – Também em 2010, um lançamento discográfico que passou batido por aqui, mas fez barulho nos EUA, foi One Fast Move or I'm Gone, projeto realizado por um dos cabeças do grupo de alt-country Son Volt, Jay Farrar e o líder dos indies do Death Cab for Cutie, Ben Gibbard. O registo fora adaptado inteiramente por Farrar, que chupou os textos de Kerouac, mais propriamente o material do livro Big Sur, lançado tardiamente em 2010 aqui no Brasil pela gaúcha L&PM. O projeto nasceu quando o sobrinho do escritor, e produtor Jim Sampas, pediu aos dois músicos para contribuírem num documentário sobre a vida de Kerouac - durante o período em que ele escreveu o romance que foi publicado originalmente em 1962. Utilizando palavras do próprio escritor, One Fast Move or I'm Gone capta o drama do alcoolismo e depressão, vivido por Keroauc logo após On The Road. Jay Farrar não tinha lido Big Sur, mas depois de receber o convite de Sampas, dedicou-se a absorver o universo do livro. Cinco dias após ter concluído a leitura, o compositor tinha o material praticamente pronto. E o disco resultou em uma sensacional mistura de blues, folk e alt-country temperado com o espírito beat.

O Kerouac original retocado pelo neon. The oficial web site 
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Como podemos perceber a barulhenta batida imperfeita do mantra daquela rapaziada da pesada ainda ressoa na música, cinema e literatura, e ininterruptamente suas obras continuam a arrebanhar discípulos e novos simpatizantes. Quando On The Road chegar aos cinemas de todo mundo (a previsão de estreia está agendada para dezembro), nossos ouvidos não deixarão de perceber o grande estrondo que tomará conta dos quatro cantos do planeta. 


Pra finalizar, fiquem com o trailer de Neal Cassidy, filme dirigido em 2007 por Noah Buschel com Tate Donovan na pele do verdadeiro Dean Moriarty. 

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