terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Aconteceu num quarto de hotel em Havana

Foto: Kazuo Okubo

“Não posso acreditar que a vida seja tão complexa / quando só quero ficar sentada aqui vendo você tirar a roupa”

                                              P.J. Harvey em This Love, do disco Stories From City, Stories From The Sea 

Ele não poderia mais mudar o seu ponto de vista. Não nessa altura do campeonato. Seria impossível! Ainda mais agora que havia encostado a ponta do dedo em um pedaçinho do céu. Lá de cima pôde perceber que o resto das coisas não tinha mesmo graça nenhuma. Nenhuma novidade. Agora ele sacava toda a euforia dos pardais. Foi numa noite dessas, igual à outra qualquer, quando ele chegou ligado de bebida & farpado de histórias. Conforme haviam combinado, aquela seria a última das últimas das noites. Se é que isso seria possível. Já no primeiro instante, quando ela abre a porta, ele pode perceber o reflexo translúcido de seu rosto sorridente no espelho de olhos cor de Bourbon. A sensação foi a melhor possível. Após um beijo rápido, ela o puxou pela mão & o levou em direção ao banheiro, enquanto as roupas dele ficavam espalhadas pela casa. Aquele banho foi prazerosamente lento & quente, um néctar reparador, já que aquele dia de trabalho parecia ter-lhe roubado completamente as energias. Ela o esperaria no quarto. Mesmo com as luzes apagadas todos os contornos eram materializados pelas mãos incansáveis daquele homem ainda cansado. Mesmo assim, ele esteve pelos cantinhos mais secretos & todos os sabores que encontrou por lá agradaram ao seu paladar. O nácar da pele dela reluzia entre os lençóis como a lua da colheita em setembro. 

Ele desejava a distância de tudo. O celular fazia o papel de um rádio de pilha tocando as músicas que ele sonhava & ouvia todos os dias. Uma breve pausa a sombra da luz azul do abajúr. Ela descascou com paciência um figo maduro & ele admirou a habilidade dela. Ela ofereceu uvas uma a uma direto na boca & ele comeu até a casca. As sementes estalaram entre os dentes. Aquela mulher parecia um bebê quando bebia água fazendo pose com a boca, abrindo & fechando os olhos. Logo depois, ela jogou a garrafa de plástico no chão & partiu pro ataque. Esse lance de morder os lábios um do outro & arrastar a língua pelo rosto, passando pelo ouvido, pescoço, boca & descendo por todos os lugares, faz os amantes perderem a cabeça. Ele a apertava com força contra o seu corpo & ela respondia com firmes movimentos de pernas entre as suas. Ele a amava com todas as suas forças, apesar de estar completamente sem forças, caindo pelas tabelas. Ele dizia ter certeza daquilo tudo. Ela o deixava propositalmente em dúvida. Até que num certo ponto da noite ele desaba, apaga por completo. 

Então, ela cuidadosamente o cobre com o lençol & por alguns instantes o observa roncar baixinho ao som de uma sirene de ambulância que vaza pela janela. Bebe outro gole d’água e aproxima seu corpo do dele. Ele respira forte como um peixe fora do mar, debatendo-se para sobreviver. Ela suspira lentamente pensando que só agora se sentia aliviada. Num passe de mágica, todo o peso que sentira anteriormente desaparecera por completo. Poucos minutos depois, ela também cai em um sono profundo. O celular fica sem bateria quando Cat Power começa a cantar Angelitos Negros. Apenas o vento continua balançando a cortina. Todo o resto parece uma imóvel fotografia antiga, quem sabe clicada por Robert Frank, em um quarto de hotel em Havana.

Um comentário:

  1. Sabe aqueles textos onde tu não consegue parar, e lá pelo meio tu se sente perdido, mas perdido no bom sentido, aquela vertigem literária...é assim. Maravilhoso, Márcio!!!! Gostei muitooo!

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