No banco de trás de um velho Chevrolet


10 de Novembro de 2008. Outra vez naquela cama estreita com o lençol desarrumado. Minha mão repousa bem ao lado de seu ouvido. Coração pulsando alto no meu pulso direito. Ela acha engraçado. Batida estranhamente descompassada. Meu antebraço segue roçando preguiçosamente o pescoço dela. A porta veneziana parece um cartão postal de um hotel antigo. Entreaberta deixa o sol entrar apenas pelas frestas. O ventilador sopra sem a mínima pressa todos os seus presságios sobre nós. Ela emudece. Não sei se está aborrecida, se está dormindo ou se apenas fechou seus olhos de gueicha. Quem sabe esteja sonhando com bonecos de cartolina no jardim de infância, festas de formatura, cavalos selvagens, uma ponte sobre águas turbulentas. Quem sabe ela tá lembrando de sua monografia que padece inacabada. Vejo uma garrafa vazia. Deve ter bebido em homenagem a uma amiga que foi embora, ou a um amor que deixou alguma coisa incompleta dentro dela. Possivelmente seja essa a última vez que a veja de olhos fechados ao meu lado na cama, quando então desejo a paz & o silêncio de uma longa noite de sono ininterrupto. Eu imploro pela primeira faixa no lado A de um antigo LP 45 rotações, riscado, voltando o tempo todo no meu trecho favorito! Ao seu lado, eu fotografo um céu em preto & branco com a classe de Cartier-Bresson. Eu orquestro a música dos grilos numa madrugada enluarada de verão. Ganho uma noite de prazer no banco de trás de um velho Chevrolet. Em seguida, eu invento a paz de um lugarejo perdido no meio do nada, enquanto dançamos a último tango no som que vaza do rádio da camionete. Eu desejo um trago da bebida mais forte - um simbólico brinde a tudo que nunca faremos. O que importa eu ter outra vida, tardiamente ela virá em outra época, em outro tempo, em outro lugar. Tarde demais! Eu me lembrarei dela como aquela que deveria ter cruzado meu caminho um pouco antes, lá por dezembro de 1949, numa desolada cidade cinzenta e bem longe daqui. Eu ainda me lembro do réveillon daquele ano, não foi grande coisa. Eu enchi a cara com cara de poucos amigos.

Comentários

  1. A forma como é posto o que leio me faz ter a sensação de que estive lá!

    Obrigada (...)!

    O meu tbm... "está em construção".

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  2. Oh, Seu Márcio me ensina a escrever bem assim?? Adorei! Cinematográfico como sempre! Te chamo pra dar pitacos nos meus roteiros quando eu conquistar Hollywood! kakakak Brincadeira. Bjus da Bia

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