Trilha Sonora


As luzes se acendem e os créditos finais são interrompidos bem antes do epílogo. Eu estava apenas esperando a rabeira de todo aquele amontoado de letreiros para descobrir o nome de uma das canções do filme. Talvez fosse Bob Seeger. Bueno, quem se importaria com isso a não ser um cara como eu? Uma porta central e duas laterais são desatreladas e poucos minutos depois todo o público vai escoando diretamente para o olho da rua. Parece gado no brete. Imediatamente, surge um homem baixinho e grisalho, inofensivo como um pequeno inseto, executando seu trabalho com o olhar amorfo. O silencioso funcionário segura displicente uma descomunal vassoura a varrer os vestígios da última sessão de cinema daquela noite. Enquanto caminho disfarçado de espectador retardatário, corto ao meio uma cinzenta nuvem de pó ao cruzar pelo homenzinho, que mesmo assim, não interrompe seu nobre ofício. Preguiçosamente caminho até a saída e como um fantasma em fim de carreira vou sacudindo a poeira da roupa sem o mínimo traço de aborrecimento.

Meu relógio marca quase 1/2 noite e nesse horário a cidade fica mais aprazível sem aquela carrada de gente esbarrando uma nas outras. Sem falar nos ambulantes e toda uma fração de pobres coitados distribuindo panfletos e olhares vazios nas esquinas. E o inverno acaba esvaziando ainda mais as ruas e apenas alguns poucos gatos pingados trocam as cobertas pela friagem, ou se arriscam a circular pelo centro. Vejo um entediado gato amarelo revirando uma lixeira. Bem ao lado, um vagabundo qualquer dorme em um banco de praça usando uma garrafa vazia como travesseiro e sacos de estopa como proteção. Cada pueblo um paisano. Levanto a gola do casaco e fecho o último botão da camisa de flanela. Deve tá fazendo uns cinco graus ou coisa parecida. Compro um cachorro quente atopetado de maionese e ketchup. Devoro a minha refeição rapidamente e saio todo lambuzado ziguezagueando pela avenida com uns dez guardanapos entre o bolso e as mãos. E´inevitável, o previsível acaba acontecendo e um bocado de molho acaba escorrendo na minha calça jeans. Poucos segundos antes da última mordida o ônibus finalmente chega. Um minuto adiantado. Coloco os fones de ouvido, passo pela roleta e sento bem no fundo do ônibus. Nenhum conhecido por perto. Perfeito! Little Feat fará a minha trilha sonora até em casa. Detesto quando alguém senta ao meu lado e começa a conversar. Prefiro trocar figurinhas com meu chapa dos fones. Lowell George é o cara!!!!

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