sábado, 26 de abril de 2008

Resenha: DivulgaçãoNa Natureza Selvagem

Divulgação
Li "Na Natureza Selvagem" pela primeira vez no inverno de 1998. Na época o livro do escritor e alpinista Jon Krakauer foi uma grata surpresa. Acabei relendo 'Natureza' várias vezes ao longo de uma década. Um dos fatos marcantes na história história de Christopher McCandles, eram as incontáveis citações que o livro me arremeteu: Tolstoi, Jack London, Henry Thoreau, Everett Rues, Mark Twain, Boris Pasternak e muitos outros escritores e aventureiros - sucessivamente nominados através de epígrafes e trechos sublinhados nas páginas dos livros de bolso que McClandles levava consigo. Além disso, a linha de pensamento do personagem havia sido registrada com minúcias em seu diário. Pessoas que conheceu, endereços que visitou, o que comia, o que sentia, quais eram os sonhos daquele jovem. 

Krakauer relata toda a história do garoto de família rica, que após concluir sua graduação, abandona o conforto do lar, para em seguida cair na estrada como um autêntico beatnik deslocado de seu tempo. Em "Viajante Solitário" (Lonesome Traveler), Jack Kerouac já previa a extinção do autêntico vagabundo americano. Sua retórica passava por defender andarilhos ilustres, e Jack relembra algumas figuras históricas como Jesus Cristo e Benjamin Franklin, que segundo ele, curtiam como poucos o exercício da vagabundagem. Ainda na linha de raciocínio do rei dos Beats, o vagabundo whitmanesco estava com os dias contados devido a truculência do capitalismo americano e principalmente ao crescente culto a sociedade de consumo, que já começava a ser percebida pelo visionário escritor de "On The Road" no final dos anos 40. "Tenho um bom chapéu na cabeça / uma trouxa as costas / o meu bordão /a brisa refrescante e a lua cheia."- pois essa livre associação do poema de Dwight Goddard, entre idealismo, audácia, individualismo e culto a natureza, cai como uma luva na caracterização do personagem que o jovem McCandles iria em breve se tornar.

Acreditando na mítica do andarilho universal, ele mudou o nome para Alexandre Supertramp, doou suas economias para uma instituição de caridade, abandonou o carro no deserto, queimou documentos, cartão de crédito e a alguns míseros dólares que tinha no bolso, para logo em seguida, girar pelos Estados Unidos em busca de seu genoma original. Sobrevivendo através de sub-empregos e pela generosidade de pessoas que encontrou ao longo de sua trajetória, Supertramp perseguia a besta besta primordial que estava enjaulado em si próprio, e que segundo suas convicções seria libertada nos confins do Alaska. Como um obstinado, acreditava que seu isolamento no continente gelado, o fizesse voltar no tempo e sentir um sopro do mesmo ar imaculado que fomentou seus heróis imaginários. Jack London ficaria orgulhoso!!

Sempre que surge uma nova adaptação de uma grande história como essa, é previsível que ouçamos o velho bordão: - o livro é melhor que o filme. No caso de "Na Natureza Selvagem" eu diria: - leia o livro e veja o filme. O Longa-metragem adaptado pelo ator-diretor Sean Penn (que também assinou o roteiro da produção) é simplesmente sublime, como também podemos constatar que as duas obras se completam. Sean Penn filmou o épico no mesmo local onde a história realmente aconteceu e além das belas locações no Alaska, a música de Eddie Vedder promove um enlace perfeito entre a trama e a paisagem. Amigo pessoal de Penn, Vedder compôs uma dezena de pequenas canções folk, rock violeiros e diminutas pérolas que alinhavam os momentos mas decisivos do filme. Confira parte dessa comunhão em "Hard Sun".

Ironias a parte, a película foi praticamente ignorada na última edição do Oscar. Levou apenas duas estuetas: melhor montagem e ator coadjuvante (para o veterano Halbrook). Apesar de levantar sem contundência a bandeira do anarquismo, o filme expressa uma explícita desilusão com os atuais rumos da sociedade americana. Muitos dizem que Sean Penn encontrou em Chris McCandles seu alter ego. Talvez seja verdade. Mas o certo é que o diretor fez desse filme um de seus projetos mais pessoais. Destaque para Emilie Hirsh, perfeito como protagonista - e no maior papel de sua carreira (no ótimo "Heróis Imaginários" ele já havia demonstrado que tinha café no bule). Uma curiosidade: Durante 10 anos Penn tentou convencer a família McCandles e Krakauer a encamparem o projeto da adaptação para o cinema. As negociações se arrastaram por tanto tempo que o ator inicialmente escalado para interpretar o jovem aventureiro - Leonardo DiCaprio, ficou velho demais para o papel. No final das contas, Emilie Hirsh, seu substituto, tem 22 anos, 11 a menos que DiCaprio. Resumir o filme em uma frase? EMOCIONANTE!!

2 comentários:

  1. Grande Márcio, sempre proporcionando fortes emoções com suas dicas.... filme tocante, fotografia e trilha ....sem comentários!!! Forte abraço!

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  2. Se eu chorei lendo o livro, imagina com o filme!! Bjus da Bia

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