Entrevista: “Campos Neutrais" é meu melhor trabalho”, diz Vitor Ramil

Foto: Guilherme Bragança
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Santa Maria recebe show do artista no próximo dia 12

Por Márcio Grings

O show que a cidade verá no próximo dia 12 de maio, no Salão de Eventos do Colégio Santa Maria, será especial. Os ingressos estão à venda na Loja Tevah (Rua Dr. Bozano, 1.167). Em primeiro lugar a apresentação ganha esse caráter de exclusividade porque será uma das poucas premières de Vitor Ramil antes do início da turnê de “Campos Neutrais”. Seu 11° álbum de estúdio tem lançamento previsto ainda para o segundo semestre de 2017. E ele avisa: com o show “Voz & Violões”, sempre há espaços pra surpresas: “Eu gosto desse lance das pessoas pedirem músicas, curto esse formato centrado apenas no violão e voz, afinal, desse modo eu sou a banda de mim mesmo”. 

Confira o SERVIÇO COMPLETO para o show do dia 12

Foto: Guilherme Bragança
E o melhor, as novas músicas também estão no script: “Em Santa Maria eu vou tocar algumas coisas do novo disco”, avisa o artista em entrevista por telefone. Ou seja, nessa apresentação em especial, uma das poucas antes da turnê de "Campos Neutrais", revela além do conhecido e celebrado repertório do músico, temas ainda inéditos ao público: "Pra mim é bom que haja 'uma fase de transição', até para me acostumar com as letras, execuções e as novas músicas”.

Leia entrevista de Vitor Ramil ao Memorabilia publicada em setembro de 2015 

No vídeo abaixo Vitor Ramil convida o público para o show do dia de 12 de Maio.




E o artista não apenas vive uma fase de encantamento com o novo material reunido, como também está convicto do quilate desse conjunto de novas canções: “Eu já falei algumas vezes que esse é meu melhor disco, e não apenas por estar imediatamente afeiçoado ao que acaba de ser gravado, mas realmente acredito que reunimos um repertório muito forte”. E reforça: “Seja pelos temas, harmonia, forma de tocar, a maneira como as músicas foram se encaixando, tudo isso me permitiu fazer um álbum com muita unidade. Acho que depois de tudo concluído, após um afastamento do processo, vou olhar para ‘Campos Neutrais’ e ter a certeza que esse é o meu melhor trabalho”.

Foto: Guilherme Bragança
E todas as etapas do projeto estão se cumprindo. Concluídas as gravações, e faltando ainda pouco mais de dois meses - o crowfunding de “Campos Neutrais” já arrecadou mais de 50% do valor total do financiamento: “Eu não gosto do nome financiamento, pois a coisa mais incrível disso é a mobilização do público e até mesmo a forma como o disco vai se colocando antes mesmo de sair. Assim, aos poucos, os participantes assimilam as músicas, passam suas impressões e isso tudo acaba sendo muito motivador para quem trabalha”. Além do mais, dentro das compensações entregues aos participantes, Vitor teoriza sobre outra benesse dessa interação: “E entre as contrapartidas, eu acabo parando pra escrever textos que são enviados para os colaboradores, e isso passa a ser um processo de reflexão compartilhada”.

No início de abril, Vitor falou um pouco o processo de gravação.



Participe da campanha de financiamento coletivo de "Campos Neutrais" 

Uma das mais conhecidas características de Ramil como músico/compositor é o zelo com suas criações: “Eu tomei muitos cuidados com esse disco. Antes da escolha das canções, se eu fosse computar tudo o que compus e ainda não foi gravado, devia haver cerca de umas 50 músicas. No final cheguei a 14 músicas mais uma vinheta, e acredito que tenho sorte de ter agrupado um conjunto muito afinado entre si”. E outro dos traços de sua natureza artística é a paciência. Ele nos diz por que prefere colocar no mundo suas sementes apenas quando elas encontram um espaço adequado para vingarem: "’Ramilonga’, por exemplo, composta em 1985, só veio a ganhar luz como gravação doze anos depois, em 1997. Certas vezes grandes canções podem se perder dentro de um contexto inadequado”. 

Felipe Zancanaro e Vitor. Foto: Guilherme Bragança
Ramil esclarece mais detalhes sobre a linha do tempo desse processo, quando relembra alguns de seus tropeços e obstáculos, revelando assim o cuidado em evitar novos erros: “O formato de ‘Campos Neutrais’ era uma ideia antiga, mas sabia da complexidade da execução. No ‘Longes’ (2004), que foi gravado em Buenos Aires com um quarteto de metais, tive problemas ao longo do processo de captação, muito pela dificuldade de afinação entre os músicos. Podemos juntar grandes instrumentistas, que foi exatamente o que ocorreu nesse caso, mover uma série de eventos pra chegar até o estúdio, e esbarrar em problemas de afinação com os instrumentos, formas de gravação, etc. Aí imagina eu ter esse mesmo problema em ‘Campos Neutrais’? Mas no final das contas tive a sorte de encontrar o Quinteto de Sopros de Porto Alegre, formado por músicos incríveis, além dos arranjos minimalistas do Vagner Cunha”.  

Moogie Canazio, Ramil e Zeca Baleiro. Foto: Guilherme Bragança
Ainda falando sobre o processo de gravação, nosso entrevistado nos dá mais detalhes: “Tudo começou com uma arquitetura de arranjos de percussão, e percebi que essa percussão cumpre a função do baixo, quanto aos graves, e assim dei liberdade pro percussionista flutuar nos graves. Logo depois gravei os violões guias, e na gravação final, dobrei todos os violões. E com esse detalhe os violões e o som ficou grande, vistoso”. E assim, a espinha dorsal de “Campos Neutrais” fica definida da seguinte forma pelo autor: “É um disco de metais, percussão e violão. Essa é cor principal com participações pontuais, resultando num álbum afirmativo e próprio da minha linguagem musical, além de surpresas harmônicas e melódicas que são um prato cheio para qualquer arranjador’.

Veja vídeo com Vitor falando sobre as participações de Felipe Zancanaro e da sobrinha Gutcha Ramil.



E esmiuçando as tonalidades do novo álbum, segundo Vitor podemos encontrar arranjos eruditos, milongas, acentos da música do norte/nordeste do país, traços de luz e sombra que evocam o idioma do rock acústico, mas indubitavelmente vão ao encontro de uma definição de imagem pessoal, um mundo harmônico próprio, uma digital única do já conhecido universo ramilniano. Chico César (que participa do álbum) disse que “Campos Neutrais” possui um sul que ‘reconhece a América do Sul, mas que também reconhece o Brasil’. Além dele, o disco também conta com participações de Zeca Baleiro, Carlos Moscardini, Felipe Zancanaro, Gutcha Ramil e do percussionista Santiago Vazques.   

Foto: Guilherme Bragança
Zeca Baleiro e Vitor. Foto: Instagram ZB
A captação do álbum ficou a cargo de Moogie Canazio. O engenheiro de som carioca que há quase trinta anos mora nos Estados Unidos, já atuou em trabalhos de Sarah Vaughan, Diana Ross, Burt Bacharach, James Taylor, João Gilberto, Ivan Lins, Caetano Veloso, Milton Nascimento, entre outros. Em várias funções e atuações, produções com suas assinaturas foram indicadas a 29 Grammys! (o maior prêmio da música mundial). Levou 7. “Sempre tive vontade de ter nas gravações mais peso nos meus violões. Eu tenho muita confiança no Moogie, e nesse disco ele me entregou o melhor som de voz e o violão da minha carreira. O som do disco é de um nível internacional, no bom sentido mesmo, uma qualidade impressionante”.

Leia entrevista de Moogie Canazio ao Memorabilia

Moogie Canazio e Vitor falam sobre o processo de gravação de "Campos Neutrais".



Sobre o carimbo de artista gaúcho, da constante associação de uma música migrante das raízes sulistas para um espectro mais amplo, ele minimiza sua importância e protagonismo: “Muitas pessoas fazem isso no RS, eu apenas teorizo sobre, o que acaba se tornando algo emblemático no meu trabalho. A minha geração teve que lidar com o lance de nativismo, tradicionalismo, rock, MPB, samba... Eu mesmo tinha preconceito e não me permitia a aceitar uma música como 'Não é céu' que depois acabei gravando, por ser meio bossanovística. Eu, um brasileiro, não me permitindo a brasilidades... como se eu não fosse brasileiro. E por outro lado, também havia cobranças para assumir um gauchismo, por exemplo, algo que acompanhei de perto com meus irmãos no Almôndegas (grupo que fez sucesso nos anos 1970). Esse é o desafio, encontrar uma imagem nossa que não seja estereotipada. Um exemplo desse caminho do meio é o novo disco do Apanhador Só”.

Chico César e Vitor falam sobre sua parceria.



E depois de “Joquin” (Joey), “Só você manda em você” (You're a big girl now) e “Um dia você vai servir a alguém” (Got serve somebody), Vitor apresenta sua quarta versão para uma música de Bob Dylan: “[antes da mixagem] Sara [que em sua releitura passou a se chamar ‘Ana’, uma homenagem a sua esposa] é uma das músicas mais prontas de 'Campos Neutrais'. Uma canção emocionante e solene, e parte da solenidade talvez se deva ao arranjo de metais, que emprestou uma cadência peculiar ao tema”.  

Chico César no estúdio. Foto: Plano 9 Filmes 
O músico ainda falou do Prêmio Nobel de Literatura entregue a Dylan: ”Eu também escrevo e componho e nunca vi separação entre uma coisa e outra. Tudo é criação. Ele sempre escreveu muito e cantou aquilo que escreveu. Eu acho que é mais curioso o Nobel dar o prêmio a Bob Dylan do que ele receber. Afinal de contas, foram as palavras dele que o tornaram conhecido e reverenciado no mundo todo”. Ramil  divaga mais sobre sua admiração pela obra do bardo norte-americano: “Dylan sempre encontra o tema certo, não sei de onde ele tira tanto assunto! Ele escreve de um jeito aberto, as imagens que utiliza e forma de abordagem. Tenho a impressão que ele passa com certa pressa pelas coisas e as absorve como se fosse um homem dotado de um tipo de inteligência só dele”.  


E é nesse contexto e recorte de tempo que Vitor Ramil vem a Santa Maria, quando certamente poderemos presenciar um momento especial na carreira de um dos mais respeitados representantes da nossa música, e consequentemente para todos nós, futuras testemunhas dessa apresentação. No vídeo abaixo, saiba mais sobre a temática e o conceito de "Campos Netrais".



“Vitor Ramil – Voz & Violões”, em Santa Maria, tem o patrocínio das Lojas Tevah, KL Corretora de Seguros e Uglione. A promoção é do Clube do Assinante do Diário de Santa Maria. Apoio cultural Babette. Restaurante Augusto,  Zeppelin Bar, Santo Garden.  Ali Druzian Decor, Rádio Universidade, Colégio Marista Santa Maria, Moin Moin Bäckerei und Bistrô e Ponto Gráfico. Vitor Ramil Voz & Violões é um convite do Hotel Dom Rafael Premiun. Realização Cida Cultural Grings - Tours, Produções & Eventos e Ramil e Uma Producoes Artisticas.

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Abaixo, veja três vídeos dos bastidores das gravações que exibem alguns contornos de "Campos Neutrais".   


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