Contém spoilier: Robert Johnson não vendeu a alma ao diabo


Por Márcio Grings

Não interessa a perspectiva — um bom artista, não necessariamente precisa ser alguém ajustado com o sistema — pelo contrário — “a falta de compostura é a marca do herói”, já nos lembra Jean Cocteau. Artistas, na sua maioria, são seres perturbados, assombrados, desajustados. Muitas vezes agem à margem da sociedade, são renegados, mal pagos, dão murro em ponta de faca, são sujeitos que abrem portas emperradas — muitas vezes a coice —, assim como nos revelam tanto as maravilhas da experiência humana quanto barbáries e injustiças. Bom artistas, experimentam, rompem fronteiras, são nossos dublês nas cenas perigosas, inventam no inesperado, zoam da descrença, balançam na vibração dos sacolejos do amor, fazem pactos, peitam o preconceito e levantam a poeira após levar rasteiras e mais rasteiras da vida. Antenas humanas, morrem em corpo físico, mas deixam legado, pois a arte não fenece, e reverbera além.

Veja a live sobre Robert Johnson no Pitadas do Sal.


O mito de Robert Johnson sobrevive por muitos motivos, entre eles coloque na conta de uma série de lendas e mistérios ainda não desvendados. O compositor de "Sweet Home Chicago", "Crossroads" e outros vinte e sete músicas (são apenas vinte e nove) está no topo da pirâmide dos pilares do gênero, à frente dos bons músicos que vieram antes dele, e à frente de tantos outros gênios da raça surgidos após sua morte. Robert veio de um mundo impregnado pelo preconceito e a violência e usou a sua música para dissipar qualquer oposição. 

Robert Johnson viveu muitas tragédias na sua vida: perdeu mulher e filho quando tinha apenas 19 anos, ambos mortos durante o parto da esposa; depois foi impedido de conhecer o outro filho que teve, pois sua segunda mulher era advinda de uma família religiosa que não admitia ter entre eles um músico que tocava a 'música do diabo' — o blues, redenção e danação de muitos ´músicos daquele tempo. Ainda vale lembrar que foi ele que 'inaugurou' o Clube dos 27, pois o talento e a morte prematura tem a letra jota no nome — Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix... e Robert Johnson, todos mortos aos 27.   

CROSSROADS

Eu, assim como muitos da minha geração, começaram a se aprofundar na música de Robert Johnson em 1986, com “A Encruzilhada” (Crossroads), filme dirigido por Walter Hill com Ralph Macchio e Joe Seneca, um roteiro enciclopédico da experiência do blues, baseado em algumas lendas da vida de Robert Johnson e na busca pela suposta canção perdida do bluesman.

Quase 40 ano depois, “A Encruzilhada” é um filme que envelheceu bem, tirando a parte final naquele duelo distópico entre Eugene Martone (Ralph Macchio) e Jack Butler (Steve Vai), hoje sabe-se que a ideia do diretor foi  uma tentativa de capturar o público mais jovem (por isso a inclusão de Vai, um herói da guitarra real, mas distante do idioma do blues). Essa escolha reconfigurou o tom, deixando o duelo final uma salada de frutas musical, sendo inclusive o momento de maior baixa do filme, a parte que envelheceu mal.

Mas o que envelheceu bem foi a música do filme. Hoje sabe-se que tanto Ry Cooder — principal reponsável pelos arranjos — quanto o guitarrista Arlen Roth, que é quem toca as partes de Macchio, pensaram num enfrentamento fictício totalmente diferente do que acabou por ser filmado no duelo final — ouça AQUI De todo o modo, o blues e parte de sua mítica entrou na vida de muita gente com esse filme, que conta com participação do gaitista Sonny Terry, uma das lendas da harmônica. Ouça a trilha-sonora  AQUI 

Veja o trailer.  

Nascido no Sul profundo, em Hazlehurst, Mississippi, em 8 de maio de 1911, Robert Leroy Johnson foi um menino que teve muitas casas, zanzou em muitas cidades, procurou um pai e nunca o encontrou, buscou um lar e se achou na estrada, perseguiu um amor e se apaixonou pelo blues. Começou a tocar como muitos garotos iguais a ele, com um diddley bow, instrumento caseiro que consiste em fios de arame tensionados entre pregos em uma placa de madeira sobre uma garrafa. Depois passou para o cigar box, violão rudimentar feito com madeira de caixas de charuto; ainda aprendeu a vibrar um jew's harp (berimbau de boca), além de soprar uma gaita de boca. Ainda adolescente ganhou o primeiro violão de uma tia e nunca mais abandonou o instrumento até sua morte trágica, envenenado por um marido ciumento enquanto tocava num juke do Mississippi, com apenas vinte e sete anos. 


No seu tempo, sobreviveu as agruras da grande enchente de 1927 no Mississippi — quando cerca de 1 milhão de pessoas ficaram desabrigadas; e ao menos 246 mil morreram. Assim como os seus, foi jogado na miséria da Grande Depressão, a maior crise financeira vivida pelos Estados Unidos, desabonando milhões e irrigando as vinhas da ira. Em meio a tudo isso, havia a música, um refúgio para aquele garoto e tantos outros iguais a ele no final dos anos 1920. O laboratório de Robert estava nos juke joints — estabelecimentos onde os afro-americanos podiam ouvir música ao vivo, geralmente localizados em cruzamentos de estradas. Em alguns desses inferninhos assistiu ídolos como Son House e Willie Brown. Mas foi o desconhecido Ike Zimmerman, de Beauregard, Mississippi, com quem morou por quase um ano, que lhe deu as mais preciosas lições e, provavelmente, tenha sido ele um dos principais responsáveis por torná-lo o músico extraclasse que conhecemos dos discos. 

Reza a lenda que Ike e Robert costumavam trocar ideias e tocar seus violões no cemitério local, o que ajudou a fomentar o tal pacto com o diabo. Com Ike Zimmerman, Robert Johnson aprendeu novas canções, afinações sinistras, padrões, a marcação do baixo no violão, o uso do capotraste, a batida inconfundível de um protótipo do boogie e tantas outras coisas. Anos depois, seu violão se tornaria  a base do blues elétrico de Chicago e seria usado como força motriz do rock and roll. 


Os dedos longos de Johnson muitas vezes pareciam digitar o posicionamento de um pianista e não de um violonista, assim como uma parte do que ele tocava, parecia conversar simultaneamente com outra metade melódica, com sua voz sempre no centro das ações. Não raro, numa primeira audição, muitos pensam haver dois violonistas em suas músicas, tamanho o emaranhado de lick e riffs. E mais: ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Robert sabia ler e escrever, fora alfabetizado em um de seus lares temporários, na época que morou com o padrasto em Memphis. Assim, quando começou a tocar, registrava suas letras e ideias em cadernos de anotações, o que o colocava um passo à frente dos colegas de profissão, muitos semialfabetizados ou incapazes de ler uma linha sequer. Outro detalhe de sua personalidade artística está na memória eidética, capacidade de se lembrar das músicas que ouviu e reproduzi-las fielmente. Johnny Shines, um de seus discípulos, e parceiro que por mais tempo o acompanhou em viagens, disse que Robert sabia centenas de canções de cor e as tocava durante seus shows.    

Robert Johnson gravou apenas 29 canções em duas sessões de poucas horas, entre o final de 1937 (novembro) e o final do primeiro semestre de 1938 (junho). Na noite anterior as primeiras gravações em San Antonio, no Texas, foi preso por vadiagem e teve seu violão quebrado pela polícia. Ele estava lá a trabalho, mas mesmo assim seu contratante precisou pagar a fiança e arrumar um violão emprestado para que o músico cumprisse sua missão — com louvores, diga-se de passagem. Uma noite depois, novamente ligou para o contratante, dessa vez para pedir dinheiro para completar o valor referente ao pagamento de uma prostituta, afinal, todo homem e toda mulher, eventualmente precisam de companhia... Mas que falta de compostura, Robert!    

As confusões e o efeito REC não afetaram sua concentração — lá está a afinação aberta com bottleneck, estilo apoiado num riff marcado e prevalente em títulos como “Terraplane Blues” (seu maior 'sucesso' enquanto esteve vivo) e “Cross Road Blues” (seu maior sucesso depois de morto); os blues diretos em afinação padrão, como “Kind Hearted Woman Blues” e “Dead Shrimp Blues”; as canções com baixo 'boogueado', tais como “I Believe I’ll Dust My Broom” e “Sweet Home Chicago”; e as composições ao estilo hokum da Costa Leste, como “They’re Red Hot”.  

Ouvindo sua música com atenção hoje, passados mais de 80 anos de suas gravações num quarto de hotel e num galpão, estúdios improvisados em San Antonio e em Dallas no Texas, a música de Robert Johnson ainda pode impressionar um ouvinte desavisado. Suas letras são muitas vezes cruas e honestas, especialmente no que diz respeito a questões sexuais. Há um tema recorrente — amor e um desejo não correspondido. Nessa linguagem, às vezes codificada do vernáculo do Mississippi, Johnson revela seu pathos (sofrimento, paixão, afeto) e raiva por sua recorrentes perdas afetivas. 

Robert Johnson invariavelmente busca na alegoria sua abordagem para falar de questões sexuais. Ele até pode usar objetos mecânicos como um fonógrafo, um relógio ou um automóvel como ‘veículo' para essa alusões. O carro está em “Terraplane Blues”, quando diz: “Eu até pisquei minhas luzes, mamãe/ sua buzina nem vai tocar”. E uma parte falada, ele diz: “Alguém está gastando minha bateria nesta máquina”,  utilizando o Terraplane como metáfora, automóvel produzido pela Hudson entre 1932 e 1938.   

Em "If I Had Possession Over Judgment Day", como um profeta vingativo do Velho Testamento ele diz: "Senhor, a pessoa que estou amando não teria nem direito de rezar/ Algum outro homem levou minha mulher e o blues solitário me pegou"

Em “Phonograph Blues”, Robert confessa uma eventual impotência sexual: “Minha agulha está enferrujada e não pode tocar”, alegoria entre as rudimentares agulhas dos primeiros toca-discos e o falo. Talvez ele tenha sido o primeiro (ou um dos primeiros) a abordar esse tema espinhoso. Basta lembrarmos de canções exaltação como "I Just Can't Be Satisfied", de Muddy Waters, "Backdoor Man", de Howlin' Wolf e "Hochie Coochie Man", para percebermos uma honestidade rara no gênero de Robert; pois além de estar zangado e triste, ansioso ou solitário, há uma vulnerabilidade que o aproxima do ser humano comum e se afasta do folclore do homem como máquina sexual perfeita ou alguém imbatível por ter feito um pacto.   

Já em ”Love in Vain”, um de seus textos poéticos mais celebrados, Johnson pinta um cenário impressionante de despedida: 

"Eu acompanhei até a estação — com sua mala na mão/ É difícil falar sobre isso, é duro — quando todo o seu amor é em vão.  

Quando o trem chegou à estação, eu a olhei nos olhos/ Eu estava tão solitário, me senti tão só — e não pude deixar de chorar/ Todo o meu amor é em vão.

Quando o trem, saiu da estação — com dois lumes atrás/ A luz azul era minha tristeza — e a outra, a vermelha, era a minha mente/ Todo o meu amor em vão". 

É ele quem carrega a bolsa da mulher; é ele quem chora; é ele que cai e fica depressivo. Sua desilusão (não pude deixar de chorar), solidão (a luz azul era minha tristeza), melancolia (a luz vermelha era minha mente) e desperdício (todo meu amor é em vão) cercam um uma miríade de emoções associadas à perda.

Ouça as 29 canções de Robert Johnson em 29 versões de bandas/artistas.

 

Da segunda gravação que fez, em Dallas, sairia a já mencionada "Love in Vain", regravada 30 anos depois como um country blues pelos Stones. Já "Travelling Riverside Blues" não apenas ganharia uma versão do Led Zeppelin, pois o xará Robert Plant 'roubaria' parte de sua letra e grudaria essa ideia numa canção do grupo — "The Lemon Song"

“You can squeeze my lemon, ‘til the juice runs down my leg” [“Você pode espremer o meu limão até o suco escorrer pela minha perna], diz Johnson em sua canção. Ou como escreveu o outro Robert na sua revisitação: "Squeeze me, babe! 'Till the juice runs down my leg" [Aperta mais, amor! Até o suco escorrer pela minha perna]. O sexo e a bebida, refúgios da vida real de Robert Johnson, também povoavam sua música, assim como inundariam a literatura do rock and roll. Outra célebre gravação está na versão do Cream para "Crossroads", uma canção que apresentou a música de Johnson para uma nova geração de fãs.  

O LIVRO DA BELAS LETRAS

Em 2019, um livro lançado nos Estados Unidos foi celebrado como o grandes lançamento envolvendo o nome de Roberto Johnson nas últimas décadas. Trata-se de "Up Jumped the Devil – The real life of Robert Johnson" de Bruce Conforth e Gayle Dean Wardlow — lançado no Brasil pela editora Belas Letras [compre AQUI] — publicação que promete revelar a verdadeira história do bluesman. Os autores esclarecem uma série de equívocos, pois nenhum livro antes deste incluiu tantas memórias de pessoas que conviveram com Johnson. Com farta documentação, mapas e imagens fotográficas, o livro resgata lembranças de familiares, amigos de infância, vizinhos, colegas músicos, namoradas (são muitas) e outros conhecidos. As entrevistas começaram ainda nos anos 1960. Cada registro de censo, arquivo municipal, certidão de casamento, nota de falecimento e artigo de jornal também foi vasculhado em busca de mais informações sobre o músico cuja vida breve foi envolta em mistérios. A história de sofrimento e júbilo, altos extremos e baixos devastadores, foi enfim recontada e desmistificada, revelando não apenas um artista obcecado pelo sucesso, mas um profissional que trabalhou muito para ser reconhecido pelo seu trabalho. 

PACTO COM O DEMÔNIO

Bem antes de Robert Johnson, existiu um músico na Europa que ainda é constantemente lembrado como o artista pagão que vendeu sua alma ao diabo para obter sucesso. Chamado de mágico, feiticeiro, Violinista do Inferno, o italiano Nicolo Paganini vestia-se com uma longa capa preta, tinha cabelos longos e ondulados, as pessoas tocavam nele para ver se ele era de carne e osso, isso devido a essa áurea misteriosa, suas qualidades e a incrível rapidez com instrumentista. A lenda se forjara Paganin teria feito um pacto com o diabo em troca de talento e fama. Com os seus dedos finos e compridos como ponteiros de um relógio, Paganini conseguia tocar cerca de uma dúzia de notas por segundo. Não raras vezes, deixava o público perplexo ao tirar uma tesoura do bolso e cortar três cordas do violino, continuando a improvisar apenas com a corda sol. Ao morrer de tuberculose em 1840, a igreja negou sepultar o corpo do músico num cemitério cristão porque – além da fama do pacto – havia se recusado de receber os sacramentos finais. 

Ao contrário de Paganini, Robert Johnson não era um exibicionista, pelo contrário. Quando sabia que um outro músico o observava durante uma apresentação, virava de costas para esconder o movimento de seus dedos pelas escalas. Mas assim como Paganini, o virtuosismo de Johnson e o domínio de sua arte, incluindo a habilidade com a palavra escrita e o uso das metáforas, levou o público a atribuir que ele estava em aliança com o diabo. Como Johnson passava grande parte de seu tempo em bordéis (os jukes) e levava uma vida itinerante e misteriosa, seus talentos certamente deveriam vir do capeta (assim versava o senso comum). Mas antes de Johnson, alguns artistas do blues já falavam em pacto nas suas letras. É o caso da cantora Clara Smith que fala de seu acordo em "Done Sold my Soul to the Devil", uma música de 1924: “Vendi mesmo a minha alma, a vendi para o diabo, e o meu coração virou pedra". Já Robert diz, por exemplo: “I got hellhounds on my trail" (Tenho cães do inferno no meu encalço"), mas em nenhuma de suas músicas há uma frase tão afirmativa como essa de Clara Smith, uma confissão em forma de letra. Em "Crossroads" ele diz: “Fui até a encruzilhada e caí de joelhos, pedi misericórdia ao Senhor, salve o pobre Bob, por favor”. Não parece mais uma súplica por salvação do que um pacto com o diabo?    

No entanto, suas canções — supostamente profanas — assumem atributos que podem estar relacionados em outro viés, ao da iluminação, do sobrenatural, de uma influência do hoodoo (como Stones in my Passway e Dust My Broom), uma prática espiritual utilizada por muitos afro-americanos daquele período. As letras de Johnson falam de tantas coisas — paixão, solidão, exaltam suas proezas sexuais (I’m a Steady Rollin’ Man); trazem poesia ("o blues cai como granizo"); raiva; do sobrenatural ("a maçaneta da minha porta não para de girar, devem ser fantasmas ao redor da minha cama"; do desejo não realizado; fala do seu fraco pelas mulheres (“tenho mulheres em Vicksburg, faço a limpa até o Tennessee, mas aquela minha namorada de Friars Point não sai de cima de mim”); traduz recursos literários utilizados ainda hoje, mas que eram incomuns na década de 1930. Por isso tudo, pela sua proficiência, pelo seu contéudo, a música de Johnson continua nos impressionando e provocando epifanias, transformando-o num dos recorrentes titãs do blues. Pelo meu ponto de vista, extraindo a mítica fantasiosa, heróis são pessoas comuns cujas ações são extraordinárias. E Robert Johnson certamente teve uma vida extraordinária.   

Ainda no vácuo da lenda, “Me and the Devil” entrou em cartaz nos teatros americanos no ano passado. Trata-se de uma peça que abraça a fábula do trato com o diabo, ou une o núcleo mitológico com elementos-chave do relato mais realista da vida e da morte de Johnson. Na trama, Johnson morre e segue para o Inferno, onde encontra Satanás. Lá ele argumenta que ele não deve ser condenado à perdição eterna, apesar dos terríveis termos do contrato (com o qual ele admite ter concordado livremente), pois Johnson sente que o diabo não cumpriu sua parte no trato — devido a morte precoce —  além de reivindicar outros benefícios perdidos. 

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