SOBRE MÚSICA E PESSOAS INSUBSTITUÍVEIS

“Canto Alegretense”, maior gema da obra de Nico Fagundes, concorreu na 2ª Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria. E em vinil, foi registrada pela primeira vez nesse LP de 1981. 

Poucas coisas me emocionam tanto quanto uma boa música. Eu acredito que esse exercício diário de apreciação e busca nos aproxima de um entendimento maior da existência. A natureza da minha profissão me proporcionou diversas oportunidades de estar bem próximo a algumas lendas vivas do nosso tempo.

Convido o leitor a rodopiar comigo.

Ao longo dos últimos anos, já cobri/assisti shows de Eric Clapton, Paul McCartney, Robert Plant, Bob Dylan, Buddy Guy, Elton John, Black Sabbath, Deep Purple, entre outros. Numa apresentação, toda vez quando estou próximo a uma desses nomes maiúsculos que nos assombram com suas obras girando por décadas em nossos toca-discos, lembro-me de uma entrevista do Dylan. Ele disse que resolveu se tornar músico profissional depois de assistir Buddy Holy ao vivo. Segundo Bob, Buddy o olhou nos olhos por alguns segundos, e assim, foi tocado. Esse é o grande lance de um show: muitas vezes estamos vivenciando uma experiência epifânica.

Girando o pião, todo esse preâmbulo na verdade enuncia um satori que tive. Satori () é um termo japonês [budista] que é usado para definir a iluminação. A palavra significa literalmente "compreensão". É como um estalo que nos acorda para uma verdade tipo: “Ah, então é isso!”.

Epifania? Satori? Volto ao dia 02 de dezembro de 2012, um domingo, 20ª Tertúlia Musical Nativista, lá estava eu na Gare da Estação Férrea. Na época, fui a convite de uma ex-namorada que por muito tempo esteve envolvida no universo tradicionalista. Anos antes, quando mais jovem, eu me lembro de ter acompanhado a 5ª Tertúlia pelo rádio. A música ganhadora foi “Nova Trilha”, interpretada por João de Almeida Neto. 


Em outra edição do Festival tive a sorte de assistir Mercedes Sosa ao vivo. La Negra fez show de encerramento em uma das noites na Estância do Minuano. Eram outros tempos.

Aos 17, 18 anos, já estava contaminado pelo rock and roll. Apesar de ser um aparente ‘estrangeiro’ na música regionalista, sempre tive minhas preferências e ainda lembro com saudosismo das audições na casa dos meus pais, quando meu velho fumava um cigarro atrás do outro apreciando LPs gauchescos. Falo de tudo isso, por que nesta quarta-feira morreu um dos grandes e autênticos representantes da nossa cultura. Assim como não consigo imaginar Keith Richards batendo as botas, 
Nico Fagundes
Antônio Augusto ‘Nico’ Fagundes parecia uma daquelas figuras ‘imorríveis’. Na TV, o assisti centenas de vezes nos domingos da minha infância, adolescência e vida adulta. Ao vivo, só fui ver o homem naquele domingo, 02 de dezembro de 2012. Trinta anos antes, “Canto Alegretense”, maior gema da sua obra, concorreu na 2ª Tertúlia. E em vinil, foi registrada pela primeira vez nesse disco de 1981. A música é a última faixa do Lado A. Quem a gravou foi Renato Rios, proprietário do Estúdio Bobby e também da Bobbysom, uma das mais tradicionais lojas de discos de Santa Maria e onde trabalhei por meia década.

Quando o vi no palco, ele já não era o mesmo homem. Doze anos antes, um AVC o deixou impedido de artisticamente se expressar em sua plenitude. No entanto, a postura, o olhar, o garbo, a beca impecável, o arquétipo do gaúcho esplendoroso, ainda utilizava seu corpo para manifestar-se, mesmo que por breves momentos. Frente aos olhos incrédulos da plateia, bastava um gesto... E qualquer um poderia reconhecer que ali estava um gigante. É impossível não reconhecer figuras históricas frente à mesmice do cotidiano.

Relembro o personagem de John Dunbar (Kevin Costner) no faroeste “Dança com Lobos” (1990). Considerado herói de guerra, ele ganha a oportunidade de servir no posto de sua escolha, o que se revela uma oportunidade única para que realize seu sonho de “conhecer a fronteira antes que ela desapareça”. Esse é o satori, essa é a sensação que tenho quando estou frente a frente com lendas do nosso tempo. Como coadjuvante de luxo também estive na fronteira e pude apreciar nuanças de algumas paisagens raras, instantes antes que ela desaparecesse.

Num passe de mágica.

Existem figuras insubstituíveis. Nico Fagundes, sem dúvida, é uma delas.

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