RESENHA: Quarto Ácido "Paisagens & Delírios" (2017)

Divulgação
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Por Márcio Grings

Formado em Panambi, noroeste do RS, o trio instrumental Quarto Ácido busca inspiração tanto no rock dos anos 1970, quanto no stoner das últimas décadas, além de promover um flerte com o post-rock. Soma-se a essa influência a união entre timbres pesados e o som psicodélico. Com dois EPs no currículo (2013 e 2014), a Quarto Ácido já incursionou por importantes festivais de música autoral no Sul do Brasil. Em 2014, “Euphrates”, um dos temas da banda, integrou a trilha sonora do programa Rota Explosiva da MTV. No ano seguinte lançou “33”, single que se tornou o primeiro videoclipe do trio, lançado em homenagem póstuma ao baixista Flávio Mecking, integrante falecido em 2015, e que gravou sua última participação nessa faixa.

Em 2016, a dupla remanescente junta os cacos e convida Vinícius Brum (Rinoceronte) para assumir o baixo. Com músicas inéditas e repertório revigorado, a QA surge agora com o álbum instrumental "Paisagens & Delírios" (2017), CD independente materializado via campanha de financiamento coletivo. A atual formação conta ainda com os membros fundadores Pedro Paulo (guitarra) e Alex Przyczynski (bateria).

Brum, Przyczynski e Pedro Paulo, o trio Quarto Ácido. Foto: Renan Casarin 
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Gravado em Santa Maria - RS, a captação e produção tem assinatura de Leo Mayer. O álbum ainda conta com participações dos músicos Maurício Oliveira (sax), Edmilson Dias (percussão), Adriano Zuli (teclados e sintetizadores) e Rodrigo Fetter (teclados). Destaque para o material gráfico desenhado pelo artista gráfico Rafael Panegalli. 

QA. Foto: Charlei Hass
Muitas vezes a audição nos conduz ao clima de uma jam instrumental, "como se tudo fosse gravado ao vivo, resgatando a energia de um show", reforça Leo Mayer, produtor do álbum. Parte desse espírito se deve as sessões de bateria realizadas nessa vibração e ambiência no Sonare Studios (Santa Maria). "Um dos diferenciais desse processo de gravação passa pela forma de pensar os arranjos, e assim nascem texturas e timbres pouco usuais", reforça Mayer. "E não só as guitarras, mas a sonoridade num todo. A rapaziada chegou com o plano geral das ações bem definido, porém, na hora de gravar adicionamos várias detalhes", conclui.      

Já nos primeiros segundos de "Paisagens & Delírios" uma série de ruídos de instrumentos de corda invertidos antecipam o exército de guitarras de "Manhã Sépia", um dos melhores riffs do álbum. O passaredo pulando de galho em galho à beira de um riacho (sim, dá pra imaginar a cena) sem aparentemente se importar com o som de uma guitarra limpa desenhando uma sequência de notas insípidas no início de "Delírio", é apenas um engana-bobo para os desdobramentos e ziguezagues entre passagens mais lentas, intercaladas com todo o peso de um bom power trio de rock. Em certos momentos, "Serena Inquietude" e suas muralhas sonoras aludem a nebulosidade hard dos temas do Black Sabbath. "Pinot Noir" remonta breves sombreados regionalistas, além de cruzamentos com a psicodelia dos anos 1960. Em algumas breves passagens, "Obscura" pede vaga pra jogar no time do new metal, sendo que "A Marcha das Raposas", primeiro single do álbum (ouça no final dessa postagem), é puro Quarto Ácido Sound: peso, variação melódica e alternância de cores. Os orientalismos de "A Última Peça" impulsionam o tema como uma espécie de mantra stoner rock e "Felling Dead" chega a flertar com o punk/hardcore. E no encerramento dos trabalhos, A paranoia sonora de "33" nos leva de volta ao som industrial dos anos 1980, como também nos conecta ao blues e ao progressivo, tudo ao mesmo tempo, além de ser o último registro com o baixista Flávio Mecking. Bela despedida...

Veja o clipe.
 

"Paisagens & Delírios" será distribuído virtualmente pelo selo Abraxas a partir do dia 22 de setembro, sendo que a banda ainda prepara lançamento físico e apresentação de estreia do novo trabalho para as próximas semanas.

Ouça "A Marcha das Raposas". 

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