Entrevista: Caetano W. Galindo, tradutor de "Letras", de Bob Dylan

"Minha maior dificuldade foi precisamente o fantasma dos dylanianos soprando no meu pescoço uma recusa prévia", confessa o tradutor. Foto: Reprodução
Por Márcio Grings

Aos 43 anos, Caetano W. Galindo é um dos tradutores mais respeitados do país. Doutor em linguística pela Universidade de São Paulo, ele também é professor de história da língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná. Já traduziu para o português obras de autores consagrados como Thomas Pynchon e James Joyce. Como autor, seu primeiro livro de contos, “Ensaio sobre o entendimento humano”, venceu o Prêmio Paraná de Literatura 2013. Coube a Galindo a tarefa árdua de traduzir para o português (brasileiro) “Lyrics”, ou “Letras”, tomo publicado aqui no Brasil pela Companhia das Letras. Assim como a edição norte-americana, a obra que compila a totalidade das letras (músicas) escritas por Bob Dylan foi dividida em dois volumes – e em ordem cronológica, com o primeiro livro já disponível para venda nas melhores livrarias do país. “O segundo volume [que deve ser publicado no inicio de 2018]  já está com a editora. A tradução completa foi feita entre outubro e fevereiro”, disse o tradutor em entrevista exclusiva ao Memorabilia. “Eu tendo a ser considerado um tradutor rápido", vangloriasse. "‘Graça Infinita’ [de David Foster Wallace], de 1600 laudas, custou 10 meses de trabalho”.

Em Portugal as letras das canções do poeta/cantor foram editadas em dois volumes pela editora Relógio d’Água, em 2006 e 2008, respetivamente, abrangendo o período entre 1962 e 2001: Canções 1962-2001 – Volume 1 (1962-1973), Volume 2 (1974-2001), ambos com traduções de Angelina Barbosa e Pedro Serrano. "Durante dois anos e meio lá se foram as nossas horas vagas, as férias. Metemos Dylan na cabeça como uma obsessão, como uma maldição", disse Serrano no seu blogue.

ÁUDIO: Ouça a opinião de Eduardo Bueno sobre a tradução de Galindo

Divulgação
Ao lado de Christian Schwarz, Caetano W. Galindo também foi um dos responsáveis pela tradução para o português das letras de Lou Reed. Publicado em 2010, “Atravessando o Fogo” ganhou lançamento pela mesma Companhia das Letras. 

Quando perguntado sobre as complexidades em traduzir um dos nomes mais respeitados da cultura pop, ele parece não relutar: “No fundo acho que a minha maior dificuldade foi precisamente o fantasma dos dylanianos soprando no meu pescoço uma recusa prévia”. Sim, e logo após o livro cair nas prateleiras, algumas críticas começaram a pipocar, principalmente em grupos de fãs nas redes sociais (eu participo de um – “Bob Dylan Brasil”). O fato de não ser ligado à obra do músico (Galindo se declara fã de Led Zeppelin) gerou um chiado uníssono de muitos fãs antes mesmo da publicação sair. No entanto, mesmo não sendo um ‘especialista’ na obra de Dylan, ele garante ter feito o tema de casa ao mergulhar na vida/obra do autor: "Usei todas as fontes que pude acessar, como em qualquer trabalho dessa dimensão”. E ele ainda amplia: “Eu sou um profissional. Acho na verdade deletéria qualquer ideia de ‘circo’, de manter um escritor qualquer como matéria apenas dos fãs. É negativo para James Joyce o período (que ainda perdura?) em que ele só foi lido e comentado pelos "joyceanos". Felizmente hoje entre os pianistas não há mais a barreira de que só os "bachianos" tocavam Bach. Eu sou um tradutor literário competente (ou ao menos espero ser) encarando um trabalho de grande responsabilidade com grande responsabilidade”.

Ouça Podcast com Caetano W. Galindo (via Cia das Letras)

Além do mais, já era sabido pelo tradutor que o desafio de traduzir um músico da grandeza de Dylan, geraria críticas: “Eu nunca tive a menor esperança de passar ‘ileso’ pela leitura dos dylanianos! Primeiro porque todo mundo é falível mesmo, e segundo porque mesmo que a tradução fosse encarnada na terra por diktat divino as pessoas iam discordar. Faz parte da relação dos fãs com a obra de um autor ‘adorado’. E, mais ainda, faz parte da natureza do texto poético - ele vai gerar possibilidades díspares de leituras, e vai ser difícil pra alguém que tenha uma relação mais antiga com o texto o processo de "aceitar" uma leitura nova”.

Reprodução
Quando perguntado a respeito da opção da quebra dos duplos sentidos em algumas das letras de Dylan, como no caso de “Rainy Day Woman”, Galindo expõe seu ponto de vista: “Putz, eu não teria como traduzir a cada vez de maneira diferente o ‘stoned’  e não vejo muito como manter o duplo sentido. A opção foi, portanto, por manter o que me parecia ser o mais sólidos dos sentidos possíveis”. Ampliando o tema, na frase “Everybody must get stoned”, que na tradução literal pode ser interpretada como “Todos devem ser apedrejados”, mas também nos alude a entender algo do tipo “Todo mundo deve ficar chapado” - a opção do tradutor foi “Todo mundo deve queimar unzinho”. Um erro imperdoável na opinião de muitos fãs, pois essa omissão acaba por liquidar uma mensagem repleta de ironia e desvios, característica presente em muitas das letras de Bob.


Foto: Folha Press
Porém, Galindo logo depois se contradiz quando declara que 'o papel do tradutor literário é diagnosticar o maior número de possíveis leituras para um texto', pois ele fez exatamente o contrário em "Rainy Day Women". O tradutor também refuta a máxima de que 'toda tradução acaba sendo uma redução' do texto original, como alguns linguistas defendem. Na mesma via, elogia a edição bilíngue: ”Acho defensável sim que, numa edição bilíngue (ainda mais numa bilíngue tão generosa como essa, que dedica todo o espaço necessário ao original, sem reduzir fonte nem nada), quem deva brilhar é o original. a tradução, ali, se dá como apoio. Acredito ser um ideia perfeitamente legítima, desde que o tradutor também não deixe de prezar pela possibilidade da leitura autônoma. Sobre a tradução ser redução, vou te dizer o que sempre digo aos meus alunos: o papel do tradutor literário é diagnosticar o maior número possível de leituras pra um dado texto e, na sua versão, tentar manter o maior número das que diagnosticou. Eu falo em não fechar portas que estavam abertas no original. É claro que vez por outra não será possível manter todas as portas abertas. Por outro lado, eu posso te garantir que o número de leituras que um tradutor bem treinado consegue enxergar num original é bem MAIOR que o que os leitores normalmente perceberiam... logo, pode-se perder, mas normalmente perde-se menos do que se ganha... e perdem-se coisas que nem mesmo os leitores do original perceberiam (na minha experiência [e na de muitos colegas com quem eu já pude conversar] nem mesmo os autores percebem tudo”.

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E após o trabalho hercúleo de traduzir a totalidade autoral de um dos músicos/compositores mais respeitados do nosso tempo, ele se rende ao talento do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura: ”Aumento meu respeito por ele. Sobre o prêmio, foi como eu já disse por aí - acho lindo terem reconhecido a canção popular, e também acredito que ele era o cara da vez pra ganhar entre os cancionistas. Cole Porter poderia ter levado, Paul McCartney, Chico Buarque...”.

Galindo também adverte sobre um outro lado da moeda a respeito da premiação mais celebrada da literatura mundial: “Eu tenho só a ressalva (que não tem nada a ver com o merecimento do Dylan) - de que a academia tende a ser meio sovina com os prêmios pra literatura de língua inglesa, e que talvez agora, depois de um Nobel pra alguém que, como bem lembrou o Leonard Cohen [escritor e compositor canadense também reconhecido pelo seu talento literário], acho, não precisava do prêmio, uma geração inteira de poetas anglófonos (ou duas) pode ficar sem o reconhecimento maior que adviria de um prêmio como esse”.

O fato é que passo poucos dias do lançamento de "Letras" no país, Galindo vive seu momento de celebridade pop: "Nunca dei tantas entrevistas sobre uma tradução!". No final das contas, precisou a láurea de um Nobel para que finalmente "Lyrics" ganhasse lançamento aqui no Brasil. Particularmente gostei de vários momentos da tradução de Galindo, mas fica difícil de engolir uma série de deslizes e inventadas em algumas traduções. Por mais que muitas vezes seja difícil segurar a vontade de fazer a crítica pela crítica, seria injusto utilizarmos uma lupa para ampliarmos apenas aquilo que discordamos. Contudo, a edição da Companhia das Letras desde já é motivo de alegria, e por mais que celebremos o bardo em sua língua mater, Dylan finalmente fala português.

Que venha o segundo volume...

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