RESENHA: Gustavo Telles "Gustavo Telles & Os Escolhidos" (2017)


A capa do novo álbum de Gustavo Telles. Foto de Rodrigo Marroni com arte de Leo Lage. Divulgação GT
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Mesmo com o retorno das atividades da Pata de Elefante, Gustavo Telles, integrante do trio de rock instrumental, prossegue firme em sua hiperatividade artística. Depois de elogiada estreia solo em “Do seu amor, primeiro é você quem precisa” (2010), da boa sequência em “Eu perdi o medo de errar” (2013), Telles solidificou sua incursão pelo folk/country/rock/blues. Um retrospecto dessa linhagem está em “Gustavo Telles & Os Escolhidos Ao Vivo no Theatro São Pedro” (2017), testemunho do caminho construído por um repertório coerente e original. Porém, se no segundo disco o tempero soul foi uma surpresa, já no álbum homônimo “Gustavo Telles & Os Escolhidos” (2017) o espírito soul parece ter vingado forte em suas músicas. O lançamento oficial está programado para 6 de outubro, via 180 Selo Fonográfico, apenas para plataformas digitais, entre elas o SPOTIFY,  iTunes, Google Play e ONErpm.

OUÇA “Do seu amor, primeiro é você quem precisa” (2010)
OUÇA “Eu perdi o medo de errar” (2013)
OUÇA "Gustavo Telles & Os Escolhidos Ao Vivo no Theatro São Pedro” (2017) VEJA em VÍDEO

Aproximando a lupa um pouco mais, na verdade visualizamos um gene rock ‘n’ soul como palheta de cor predominante nas 11 canções inéditas, assim como reluz frente aos nossos olhos a bonita imagem da capa captada pelo fotógrafo Rodrigo Marroni, com arte de Leo Lage. E para executar o novo trabalho, ao contrário de uma legião de músicos e convidados (algo que teve seu ponto alto no show  no Theatro São Pedro, com 16 artistas no palco), dessa vez os Escolhidos são poucos: 

“Antes, a formação era flutuante e eu contava com diversos músicos colaboradores. Agora, pela primeira vez, consegui manter uma formação fixa. Isso implica em uma nova sonoridade, relata Telles.

A produção musical é de Daniel Mossmann (Pata de Elefante), velho parceiro do músico e que também é o guitarrista do álbum. E Gustavo Telles e Murilo Moura assinam a coprodução. Murilo Moura ainda está nos teclados e vocal, Felipe Kautz (Dingo Bells) no baixo e o próprio Telles mais Alexandre "Papel” Loureiro dividem a bateria. Por último, Paulo Arcari, responsável pela gravação, mixagem e masterização no Studio Rock, participa também como percussionista em várias passagens do disco. E essa escolha de fechar um time, um grupo menor e coprotagonista de todo o processo, certamente é dos fatores que contribuem para o sentimento de conexão e coesão nesse conjunto de músicas. 

Foto: Rodrigo Marroni
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De início, ao desembrulhar o pacote, topamos de cara com “Vem comigo”, um tema que coloca o pé na porta e deixa claro que estamos ouvindo um disco de rock ‘n’ roll cantado em português. “É um som pegado com alma soul”, afirma o compositor. Sotaque stoneano com identidade do rock daqui. “A coragem vem do medo”, diz a letra, ritmada como se estivéssemos emaranhados no trânsito caótico de um fim de tarde em qualquer metrópole do mundo. “Temporal” relembra um dos temporais mais devastadores que passaram pela Capital gaúcha nos últimos anos. Telles faz o serviço completo: “Em Porto Alegre, 29 de janeiro de 2016”; canta em um dos trechos da música. E um cíclico riff de guitarra empurra o tema ladeira acima. Participação da cantora gaúcha Marina Garcia e do trio Dingo Bells nas vozes de apoio.

Ouça "Temporal".


“Não, não sei, enfim” é uma canção de amor que poderia ser regravada por Odair José. O embalo romântico de fim de festa, ora nos joga de volta pros anos 1950/60, outras vezes flerta com o clima de uma banda de rock enfurnada num boteco apertado; trilha sonora adequada para uma garçonete recolher os copos sujos do balcão enquanto um segurança se ocupa em expulsar o último bêbado desse inferninho. “Deixe-me ir” nos empresta aquela sensação de movimento, um sentimento de que a vida não pode parar. Parida em linhagem soul, com direito a corinhos de “uhh-uhh” e arejada pelo clima de improviso, o tema ainda conta com participação especial de Vicente Guedes nas percussões. “Sempre mais” nos convida a sacolejar ao balanço de uma guitarra limpa que caminha lado a lado com um teclado Hammond. Perceptível a evolução do protagonista como cantor. 

Foto: Rodrigo Marroni
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“E de Tudo o que já vivi” é um blues repleto de espaços vazios, onde nos emaranhamos às nuanças de cada instrumentista. Dá pra imaginar o ar circulando entre os músicos. Apesar do recado otimista “Ser feliz, por que não / E assim, ele resolveu ir fundo”, somos aos poucos tomados por um sentimento de estafa a contaminar letra e sonoridade – abatidos pela experiência de um sofrimento vivido, como todo o bom blues deve estar impregnado. “Outra vez”, única piano song do álbum, foi captada ao vivo no velho modo ‘menos é mais’. Essa economia mostra a força das composições de Telles, fácil também de imaginá-las em outras vozes. A instrumental “Dormindo no sofá” é resquício do espólio da Pata de Elefante, música composta para um projeto abandonado que reencarna como único libelo country do novo disco, e elo a nos conectar com a lembrança do country-rock de “Do seu amor primeiro é você que precisa”.  

Um dos pontos altos do álbum está em "A Vida é breve", com destaque para o iluminado solo de guitarra de Mossmann. A meu ver uma perfeita alusão ao som do supergrupo inglês Blind Faith, formação que conseguiu reunir Eric Clapton e Steve Winwood. “Muitos dizem que têm razão” nos revela o viés político de Telles. “Eu escrevi essa música quando o pedido de impechament de Dilma estava sendo julgado”. Sim, o verdadeiro artista precisa saber separar o joio do trigo e deve assumir seu posicionamento frente à dura realidade que todos nós vivemos.   

E finalizando os trabalhos, “Que seja pra valer”, espécie de música emblema daquilo que Gustavo Telles & Os Escolhidos nos propõem com suas canções: boa música pra arejar os ouvidos! Apesar de aparentemente percorrer trilhas perseguidas por muitos músicos que se inspiram no rock difundido por bandas/artistas atuantes na segunda metade dos anos 1960 e primeira metade dos anos 1970, Telles não sofre de um mal comum em muitos de seus coirmãos: não vejo a obsessão pelo ‘retrô’ ou uma busca desenfreada pelo vintage. Pelo contrário, o espírito dessas canções me parece estar ligado com o bom rock dos dias de hoje. E por mais que o Santo Graal de boa parte dos ídolos do compositor esteja cimentado na música de um tempo passado, só os tolos (ou surdos) não irão perceber que claramente estamos a ouvir um trabalho que tem uma marca de talento do nosso tempo.

Foto: Rodrigo Marroni

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