Erasmo Carlos e Quarteto Fantástico - Santa Maria, 8 de Julho de 2017

Erasmo Carlos e o Quarteto Fantástico no ATC. Foto: Camila Gonçalves (Samsung J5)
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Erasmo Carlos esteve neste sábado (8) em Santa Maria (RS), onde se apresentou no Salão nobre do Avenida Tênis Clube (ATC). Aos 76 anos, 55 anos de estrada, ele é um dos monumentos vivos do rock nacional. E diferente de seu mais conhecido parceiro musical, Erasmo continua com um senso político afiado e posicionamento artístico ligado ao tempo atual, virtudes presentes nos melhores momentos de sua carreira. Longe de se contentar com 'zonas de conforto', o cantor/compositor carioca continua produzindo bons discos, como por exemplo o último trabalho, "Gigante Gentil" (2014), premiado com o Grammy Latino de "Melhor Álbum de Rock".

O minitour pelo RS cruzou antes por Caxias do Sul (6) e Santa Cruz do Sul (7), e o que vimos em Santa Maria não passa de um autêntico passeio pela vida de um dos sujeitos mais importantes do rock nacional. Sim, o quilate de Erasmo tem equivalência a nomes de peso como Raul Seixas, Rita Lee, e outros poucos que fundamentaram os pilares do rock no Brasil. 

Foto: Camila Gonçalves
Poucos minutos antes do show, olho para o público e por alguns instantes me sinto um garoto, já que é fácil constatar a predominante audiência madura que se faz presente no ATC, um público pouco frequente em shows de rock. Bem, mas estamos falando de Erasmo Carlos... Com isso, e até devido ao formato escolhido para o evento (com muitas mesas e cadeiras a frente do palco), a apresentação de Erasmo ganha um caráter equivocado de encontro social. Um pena, já que o que vemos em 1h25 de espetáculo é uma verdadeira aula a versar sobre o catecismo do rock/pop. Show para ver em pé, sacudindo o esqueleto. 

E um dos destaques da noite é o Quarteto Fantástico, formação escolhida pelo Tremendão para acompanhá-lo na estrada. A direção musical é de Zé Lourenço (teclados e voz de apoio), um experiente parceiro musical de Erasmo. Sangue novo no palco com Luiz Lopes (guitarra e voz de apoio) e Pedro Dias (baixo e voz de apoio), dupla integrante da banda Filhos de Judith, e desde 2009 a serviço da lenda. Completa o quarteto Rike Frainer (bateria), músico com formação em Berklee College of Music (Boston) e aluno de Mike Mangini (Dream Theater). O quarteto Fantástico empresta ao espetáculo desde reminiscências ao som da jovem guarda, mas vai além, incindindo pelo blues, rock clássico, POP, sempre dando o toque com lições de dinâmica à serviço da canção, tudo sem a mínima fritação (excessos técnicos) ou egocentrismo. Quem brilha ao centro de tudo, é Erasmo.

Foto: Camila Gonçalves
Vale o bordão - "fique sempre com os velhinhos" - mesmo que nosso herói se declare uma criança mimada pelo próprio público que criou. No entanto, acredito que essa retroalimentação nostálgica, também nos aponta para um som mais cru, irresponsável e menos adornado pela tecnologia; um abandono aos excessos, pirotecnias e principalmente uma volta as origens do gênero. O resultado desse cruzamento revela também um retorno ao essencial, ao que realmente importa na música pop e no rock. E assim, quem ganha o jogo é o tema. Um exemplo dessa prática está em "Gigante Gentil", música que abre seu último álbum, quando e cara o Erasmo poeta nos avisa: 

"Dizem por aí que eu tenho cara de bandido / E que mastigo abelha só pra degustar o mel / Que eu faço tipo cafajeste, de um gigante bruto / Que eu sou o espinho do caroço que sobrou do fruto /  Só que eu não posso com a peneira o sol tapar / E pelas curvas da ironia derrapar / Oferecer a outra face, nem pensar / Já que um leão por dia eu tenho que matar / Mesmo hostil qualquer gigante pode ser Gentil!"

Foto: Camila Gonçalves
E como não se emocionar com músicas que você se deparou a vida toda como "Sou uma criança não entendo nada"? Depois de "Filho único", Erasmo toma um gole de uma garrafa de água mineral e a versão politicamente incorreta do velho roqueiro ressurge no palco: "Minha vida melhorou depois que troquei o uísque pela... vodca!". Antes de "A Carta", um de seus últimos sucessos gravado em parceria com Renato Russo, o cantor conta a plateia que durante suas primeiras andanças pelo Twitter, se assustou com a agressividade dos comentários a seu respeito. Soltou o riso contando sobre as piadinhas como “se Erasmo levantar o braço, Deus puxa”. E felizmente, o que vimos no ATC foi um músico bem humorado, em harmonia com sua banda e sincronizado com o público que o ovaciona.

Ao longo da noite, intercala canções consagradas como "Gatinha manhosa", "Sentado à beira do caminho", "Mesmo que seja eu", "Mulher (sexo frágil)" e "É preciso saber viver", com alguns temas menos óbvios de seu repertório. Nesse último quesito, destaque para números como "Jogo Sujo", um dos símbolos de quão poderosa e relevante é sua obra 'desconhecida' do grande público. De "Carlos, Erasmo" (1971), aquele que é considerado por muitos o melhor álbum de sua carreira, o cantor toca "É preciso dar um jeito meu amigo", faixa que faz parte da trilha sonora da série da Rede Globo "Os dias eram assim" - num incrível vai e vem de intensidade sonora proposta pela dinâmica da banda - e "Dois animais na selva suja", temas que soam mais atuais, modernos e perigosos do que a grande maioria das músicas que qualquer um de nós ouve por aí.  

Foto: Camila Gonçalves
Um recorte bonito da noite fica por conta do medley de canções compostas em dupla com Roberto Carlos. Acompanhado apenas pelo teclado de Zé Lourenço, Erasmo faz um mash-up com "Desabafo", "Olha", "Proposta", "Cavalgada", "Café da Manhã", "Os seus botões", "Detalhes", "Eu te amo, te amo, te amo" e "Como é grande o meu amor por você". 

"Quero que vá tudo pro inferno" vira um blues nervoso e arrastado, numa releitura low-profile de Erasmo, como se não houvesse mais necessidade de falar alto para mandar tudo as favas. E precisa? Se olhasse para o set e apenas imaginasse a trinca final de cartas marcadas com "Minha fama de mau", "Vem quente que estou fervendo" e "É proibido fumar", poderíamos pensar em algo insosso, inofensivo e requentado, sem o viço de um rock mais venenoso. Pelo contrário, é nesse momento que Erasmo e o Quarteto Fantástico propõem um som virulento, chamuscado pelo psychobilly e repleto de reinvenção. 

Foto: Camila Gonçalves
A temática segue no bis, quando ouvimos uma fantástica versão de "Negro gato" seguida de "Eu sou terrível", para previsivelmente (e deliciosamente) terminarmos a noite com "Festa de arromba". Se alguém perguntar a você como anda o atual show de Erasmo Carlos, a resposta é apenas uma: melhor do que nunca!

Obrigado a Maestro 1 (Romenito Nunes e Márcio Kbeçinha) pelo suporte e credenciamento. 

Erasmo Carlos & Quarteto Fantástico - ATC, Santa Maria (08/07/17)

Setlist:

01 Gigante gentil
02 Sou uma criança não entendo nada
03 Filho único
04 A carta
05 Gatinha manhosa
06 Dois animais na selva suja
07 Mesma que seja eu
08 Sentado à beira do caminho
09 É preciso dar um jeito meu amigo
10 Mulher (sexo frágil)
11 Jogo sujo
12 É preciso saber viver
13 Medley - Desabafo/Olha/Proposta/Cavalgada/Café da Manhã/Os seus botões/Detalhes/Eu te amo, te amo, te amo/Como é grande o meu amor por você
14 Quero que vá tudo pro inferno
15 Minha fama de mau
16 Vem quente que eu estou fervendo
17 É proibido fumar

Bis

18 Negro Gato
19 Eu sou terível
20 Festa de arromba 

Veja vídeos de "Sou uma criança não entendo nada", "Sentado à beira do caminho" e "eu sou terrível". 



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