Vitor Ramil Voz e Violões - Santa Maria, 12 de Maio de 2017

Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo

O violão é um instrumento que transcende a simples imagem de um músico como relatador de suas visões artísticas. Frente a uma plateia, sua ancestralidade como ferramenta musical remonta épocas distantes e as mais variadas culturas ou distintos gêneros artísticos. Derivações o conectam ao alaúde árabe, a cítara romana, a ‘guitarra’ espanhola, e assim por diante, transformando-o como um dos principais protagonistas da canção popular. Impossível desassociá-lo do cantador universal, chegando aos dias atuais como sobrevivente incólume às transformações tecnológicas do nosso tempo.

Leia entrevista com Vitor Ramil

Pensei nisso ao rever a imagem dos três violões Martin no centro do palco do Salão de Eventos do Colégio Marista Santa Maria. Mesmo numa época em que a tecnologia passa a ser um definidor das ações, minutos antes do início do show “Vitor Ramil – Voz & Violões”, na noite outonal da última sexta-feira (12), esse cenário atemporal, à moldura de qualquer época, é o que nos salta aos olhos e antecipa a visão do novo encontro com Vitor Ramil.

Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo
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Prestes a lançar “Campos Neutrais”, seu 11º álbum de estúdio, o artista pelotense começa aos poucos a revelar as novas músicas. Foi o que fez no último sábado (6) em Belo Horizonte (Festival Cantautores), na quarta (10) em Porto Alegre (Festipoa), e novamente em Santa Maria, última cidade que pode conferir esse minitour de perto, um momento de transição que antecipa um novo capítulo na sua carreira.

Veja álbum de fotos do fotógrafo Pedro Lenz Piegas

"Será que as pessoas querem ouvir as novas músicas?”, Vitor me pergunta durante a janta com a equipe de produção na noite anterior ao evento. “Claro que sim!”, respondo com uma convicção dissimulada pela curiosidade. No final das contas, assistimos a première de “Satopep Fields Forever”, “Duerme, Montevideo”, “Stradivarius” e “Labirinto”, canções que em setembro ouviremos no novo CD. Claramente dá pra perceber que os temas inéditos possuem o DNA daquilo que conhecemos da obra do músico, e mesmo frente ao estranhamento inicial, também é perceptível a afluência de “Campos Neutrais”. Vem aí um grande disco.

Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo
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E pra quem assistiu as últimas apresentações de Vitor Ramil na cidade (leia sobre a apresentação de 2015), o setlist é completamente diferente de outras passagens por aqui. Entre as surpresas, ouvimos temas pouco utilizados em suas escolhas habituais (pelo menos do que acompanho e já vi) como “A Resposta” e “Sapatos em Copacabana”. Por outro lado, clássicos da sua discografia como “Astronauta Lírico”, “Ramilonga”, “Deixando o Pago”, “Não é Céu”, "Milonga das Sete Cidades" e “Noite de São João”, além da sempre presente "Estrela, Estrela", gemas que costuram nuanças já conhecidas de seu público, mas nem por isso menos encantadoras. Antes de “A Ilusão da Casa”, comenta que voltou a tocá-la depois de ouvir a regravação de Ney Matogrosso, que a redefiniu em um novo arranjo que encantou o compositor (no caso, o próprio Vitor). Ao longo da apresentação o músico interage com a plateia de forma espirituosa, muda afinações, troca de instrumento, brinca com o iluminador e nos dá a clara impressão que não tem pressa de sair do palco.

Veja álbum de fotos do fotógrafo Dartanhan Baldez Figueiredo

Veja vídeo de "Loucos de Cara". Captação Gadea Produções/ Marcelo Brum Fotografia.  


A catarse se materializa em “Loucos de Cara”, uma música que encontrou sua versão definitiva no formato acústico, distante do tema original encapsulado no álbum “‘Tango”, quando a mixagem parece aprisioná-la aos grilhões dos anos 1980. Na releitura voz e violão, estamos livres da nebulosidade do baixo freatless e ganhamos clareza/translucidez absorvida pela ausência de outros instrumentos. Eu sempre achei que um artista que se resolve sozinho no palco é uma espécie de entidade revolucionária do manifesto artístico. E mesmo como tantas supostas evoluções da humanidade, essa autossuficiência ainda me comove. Um cantador, seu violão e um ponto de vista muito bem definido. E "Loucos de Cara" simboliza essa epifania. 

Foto Dartanhan Baldez Figueiredo
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No bis, estava programado ouvirmos “Milonga das Sete Cidades” e “Joquin” (uma canção que ele pretende engavetar por algum tempo, como revelou a sua assessora), mas Vitor resolve se despedir com “Foi no Mês Que Vem”, mesmo número que abriu a apresentação  de 2015 em Santa Maria. Em 1h20 de espetáculo esse também parece ser o emblema de um fechamento de ciclo, pois a canção homônima ao último álbum lançado em 2013, ainda deu nome ao seu último tour. Nosso próximo encontro com Vitor Ramil será em “Campos Neutrais”. Que esse espaço de tempo seja breve. Já estamos ansiosos.

Veja o álbum de fotos do fotógrafo Marcelo Brum  

“Vitor Ramil – Voz & Violões” foi uma realização da Cida Cultural, Grings – Tours, Produções e Eventos e Ramil & Uma Produções Artísticas. O evento teve suporte da Bolzan Áudio. A equipe técnica contou com Maurício Moura (luz), Lauro Maia (som) e André Birck (roadie). A produção executiva foi de Ana Maia.  

Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo
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Setlist “Vitor Ramil – Voz & Violões”, Santa Maria (12/05/17)

Astronauta lírico  
Labirinto
Ramilonga
Noite de São João
A resposta
Satolep Fields Forever
Sapatos em Copacabana
Duerme, Montevideo
Estrela, estrela
Stradivarius 
Deixando o pago
A ilusão da casa
Não é céu
Milonga das sete cidades
Loucos de cara

Bis

Foi no mês que vem 

Foto: Dartanhan Baldez Fugueiredo
Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo

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