NEIL YOUNG "HARVEST MOON"

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O ano era 1992. Neil Young tinha 47 e ele era o meu maior ídolo. Eu tinha 22 anos e possuía em LP, praticamente tudo que o artista canadense havia lançado até então. Quando “Harvest Moon” caiu nas prateleiras, a Pedra de Roseta da então 'nova tecnologia digital' na minha coleção de discos fundamentou sua primeira marca no acervo aqui de casa. Por quê? Simplesmente por que “Harvest Moon” foi lançado na época somente em CD.

Passado 25 anos, hoje eu tenho os mesmos 47 anos que Young tinha em 1992 e "Harvest Moon" continua tão relevante como naquele início da década do grunge. Em Fevereiro deste ano, lembramos os 40 anos de "Harvest", álbum predecessor e gema original que originou seu sucessor.  Foi quando Neil reagrupou sua banda de apoio em "Harvest", pegou o violão e gravou uma sequência para o álbum que o jogou no topo das paradas na década de 1970. Já "Harvest Moon", buscando como fonte um mesmo núcleo de baladas de inspiração country, optou por gravar ao vivo em estúdio e chamou seu velho amigo Jack Nitzche para produzir os arranjos orquestrais. Convocou inclusive os mesmos cantores famosos (James Taylor e Linda Ronstadt) que anos antes haviam aparecido para dar retoques finais em seu único grande hit, "Heart of Gold". Lá estavam também Ben Keith (falecido em 2011); Tim Drummond – baixo; Kenny Buttrey – bateria e Spooner Oldhan – teclados.

Neil e os Stray  Gators em 1992. Foto: reprodução
Se tivesse sido lançado em 1973, "Harvest Moon" teria sido acusado de fazer mais do mesmo, de cair num autopastiche. Em 1992, entretanto, o álbum foi saudado como o fim de uma grande jornada musical. Nas duas décadas que separam "Harvest" de seu sucessor, Neil havia passado de herói hippie a caipira reacionário e feito o caminho de volta. No entanto, "Harvest Moon" marca a confirmação definitiva de um dos ressurgimentos mais notáveis da história do rock. Nem tanto um retorno à forma, mas uma viagem de volta no tempo, o álbum mostrava que Neil Young finalmente aceitara o que todo mundo já sabia: que o "Harvest" original era um clássico, e deveria ser celebrado como tal, algo que ele próprio renegou por anos.               

Voltando a 1992, assim comprei o primeiro Compact Disc e também o meu primeiro CD Player – um AK-630 Philips. Na época trabalhava em uma loja de discos e equipamentos (a extinta Bobbysom, em Santa Maria - RS). Por ser o meu primeiro CD, e principalmente pelo conteúdo – “Harvest Moon” foi e ainda é um dos álbuns mais ouvidos da minha vida.

Na época Neil disse algo bacana sobre o trabalho em uma entrevista a revista norte-americana Rolling Stone: “Meu disco aborda a habilidade para sobreviver, a permanência, a continuidade, o crescimento e a possibilidade de chegar ainda mais alto. Não se trata apenas de me manter no mesmo lugar, de só se sentir bem. A questão primordial me parece ser não apenas ativo aos 47 anos, mas sim mais vivo e mais ativo do que, digamos, aos 23”.

Uma curiosidade, Harvest Moon (Lua da Colheita), foi batizada pelos índios, por ser a lua cheia do mês de setembro, início do outono e de algumas colheitas no hemisfério norte. Os agricultores norte-americanos também a chamam assim, pois essa lua permitia a colheita durante a noite, numa época em que não existiam modernas máquinas e onde era preciso que a colheita fosse feita no período correto.

Inspirada nessa temática inicial, parte das letras de “Harvest Moon” versam na questão ambiental. No entanto, o tema prioritário é o confronto inocência versus cinismo, sem resvalar num mero exercício nostálgico. Neil também fala de sua dificuldade de manter algumas de suas paixões. “Unknown Legend”, música de abertura do álbum conta a história de uma “Lenda Desconhecida” – uma mulher batalhadora que esvoaça seus cabelos loiros pilotando uma moto Harley Davison.

“From Hank To Hendrix” (algo como “De Hank Marvin, guitarrista dos The Shadows , a Jimi Hendrix”) é um tributo a quem faz da música um meio de sobrevivência, lembrando também do inexorável efeito do tempo em todos nós – 

“From Hank to Hendrix / I walked these streets with you / Here I am with this old guitar /Doin’ what I do (De Hank a Hendrix / Caminhei por essas ruas com você/ Aqui estou eu com esse velho violão / fazendo o que faço). 

Mas também fala de musas e amores que se vão – 

“From Marilyn to Madonna / I always loved your smile / Now we’re headed for the big divorce / California-style (De Marilyn a Madonna / Eu sempre amei o seu sorriso / E agora cá estamos, a beira de um grande divórcio ao estilo californiano). 

A renovação – “New glass in the window / New leaf on the tree (vidros novos na janela/ Novas folhas na árvore). 

Em uma das estrofes ele ainda conclui – “The same thing that makes you live /Can kill you in the end (A mesma coisa que te faz viver / Pode te matar no fim). 

Uma letra espetacular emoldurada num country rock de tirar o chapéu que ainda conta com os backings de James Taylor e Linda Ronstadt. “You and Me”, uma antiga canção folk composta em 1971 nos prepara para um dos destaques do álbum.

Ela é “Harvest Moon”, faixa título do disco, empresta a lenda (tradição?) da Lua da Colheita para falar da renovação do amor. Larry Crag, roadie de Young, mostra o quanto uma vassoura de palha pode ser útil em uma canção. A música tem sua melodia levemente baseada em “Walk Right Back”, sucesso dos Everly Brothers nos anos 60. Poucas canções podem ser mais belas! 

“War of Man” foi feita na época da Guerra do Golfo e toca na questão ambientalista do conflito. Destaque para os vocais femininos (Linda Ronstadt, Nicolette Larson e Astrid Young, irmã de Neil).

“One of These Days” é um tributo do canadense aos seus amigos do rock and roll 

– “One of these days / I’m gonna to sit and write a long letter (Um dia desses / eu vou me sentar e escrever uma longa carta)”. 

“Such a Woman”, canção romântica lindamente triste conta com arranjo de orquestra do velho colaborador Jack Nitzsche (ele também está presente em “Harvest”). Uma pintura. Já “Old King” é um country movido pelo banjo que homenageia Elvis Presley e a clássica “Hound Dog”. “Dreaming Man” poderia figurar na lápide de uma cara sonhador como eu 

–”I’m a dreamin’ man, yes, that’s my problem (Eu sou um sonhador / Sim, esse é o meu problema“. 

E “Natural Beaty”, longo tema que finaliza o álbum é outro manifesto ambientalista do velho.

Passados 25 vinte anos, “Harvest Moon” ainda figura num local de luxo na estante aqui de casa. Além de música de primeira linha, trata-se de um trabalho que continua passando seus recados. Cada um colhe aquilo que semeia, não é Neil? Estou a espera da próxima colheita.

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