JÚPITER FORA DE ÓRBITA

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Foto: Ana Bittemcourt

Texto Márcio Grings Fotos Ana Bittencourt

Já pensou presenciar ao vivo alguns dos discursos existenciais de Jim Morrison alcoolizado? Quem sabe poder assistir bem de perto a Elvis emboletado esquecendo a letra de alguma canção em pleno palco durante o final dos anos 1970? Estar na plateia de um dos concertos iniciais do Pink Floyd com Syd Barret fingindo tocar sua guitarra ou usando apenas um acorde durante toda a apresentação? Quando li sobre a história de shows que deram errado, apresentações desastrosas de grandes nomes do rock, em virtude de deslizes pessoais relacionados a drogas, embriaguez, decadência artística e outras atitudes nada profissionais, eu sempre me perguntei: “qual será a sensação de estar presente em um evento desses?”.

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Foto: Ana Bittencourt

Durante a apresentação de Júpiter Maçã, sábado passado, no Theatro Treze de Maio, por vários momentos tive a noção de quão deprimente pode ser esse sentimento de anticlímax. Nada relacionado à produção ou ao local do espetáculo, pelo contrário, tudo certo. Som, luz e todo o misancene nos conformes. O problema foi a estrela da noite.

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Foto: Ana Bittencourt

Flávio Basso deixou de ser Flávio Basso há tanto tempo, que a simples menção a essa troca de identidade parece desnecessária. E acho louvável o fato de ele conseguir nos confundir com sua atuação, onde fica muito difícil separar personagem e artista do homem. Poucos conseguem, ele chegou a esse patamar, e vejo essa criação como um dos grandes méritos em sua carreira.

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Agora, o que vimos no palco do Treze nada tem a ver com atuação ou tentativa de engodo artístico; o que presenciamos incrédulos frente aos nossos olhos foi um autêntico show de horrores e uma arapuca armada para capturar o próprio criador e criatura. E não podemos dizer que não fomos avisados disso: “Vocês pensam que estão em show de rock? Vocês vieram assistir a um filme de terror!”. Já no início da apresentação, ele e sua banda releem a versão mais esquizofrênica de “Everybody Needs Somebody To Love”.

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Foto: Ana Bittencourt

Na guitarra, Júpiter parece brincar de tocar seu instrumento, o que, na minha visão inicial, não passaria de uma antítese do tema original, ou uma ‘antiversão’ torta do som conhecido mundialmente graças ao filme “Os Irmãos Cara-de-pau”. Ok. Só que, no que compete à estrela na noite, esse foi o tom de sua passagem por Santa Maria. Guitarras foras do ritmo, solos decrépitos, vocais desalinhados salvos por uma banda espetacular que foi a redenção de uma noite lastimável.

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Foto: Ana Bittencourt

A banda base formada por Gabriel Guedes (guitarra), Lucas Hanke (baixo e voz), Leonardo Boff (teclado) e Eduardo Dolzan (bateria) não apenas segurou o tranco e a instabilidade de seu líder, como também visivelmente foi colocada à prova durante cerca de uma hora e vinte de apresentação. Atílio Alencar, produtor local do show, não deixou de externar sua decepção nas redes sociais: “Hoje acho que ficou uma impressão geral de que a fonte está secando. Todo mundo torcendo a favor, mas o cara não se ajuda”, disse Alencar em seu Facebook. E ainda concluiu: “Aprecio muito o lado selvagem do rock. Mas assistir a falência convicta de um artista talentoso é algo melancólico”.

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Foto: Ana Bittencourt

Clássicos de sua carreira como “Beatle George”, “Sídrome de Pânico”, "Mademoiselle Marchand" e “As Tortas e as Cucas”, foram esquadrinhados e esquartejados pelo seu compositor, que estava possuído pelos demônios da luxúria. Em frente ao microfone, foram inúmeros os palavrões, discursos pornográficos, elucubrações sexistas e frases desconexas em inglês/português. “Eu não sou guitarrista ou compositor. Sou diretor de atrizes pornô”, disse Júpiter visivelmente alcoolizado, bem no início do show.

Quem acabou consagrada foi a dupla de roadies, Skin e Doce, após inúmeras intervenções para auxiliar seu chefe. O músico se emaranhou no cabo da guitarra quase uma dúzia de vezes, perdeu a peruca, tropeçou no palco, balançou como vara verde ao vento, se atirou no chão e deu a entender que iria tirar um soninho pra curar a ressaca, tamanha imobilidade e inércia. Ao levantar, ajudado por Skin, Júpiter ficou surpreso ao ser avisado pelo roadie que a guitarra precisava ser afinada. Saiu do palco para voltar à cena após cerca de longos cinco minutos.

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Foto: Ana Bittencourt

Enquanto isso, um espetacular improviso da banda. Bons momentos? Sim, foi inevitável não dar algumas risadas incrédulas frente a tantos episódios inusitados em um show de um artista desse porte. Em músicas como “Cachorro Louco” (TNT) e “Morte Por Tesão” (Cascavelletes) o público garante os vocais de apoio, sendo que o mesmo acontece em “Lugar do Caralho”. Se Júpiter estava flanando em outra órbita planetária, a audiência do Treze deu show de paciência. Tanto que até coro de bis rolou. No entanto, as luzes se acendem fora do palco, anunciando que realmente é fim de papo para Júpiter Maça e sua banda.

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Foto: Ana Bittencourt

Júpiter Maçã sai de Santa Maria e nos deixa com a clara sensação que precisa de ajuda. Dono de uma carreira gloriosa, compositor de canções que embalam a vida de muitos dos que agora leem essas linhas, prestes a lançar novo single, a pergunta que fica é: qual o seu futuro artístico? Certamente ele pode nos oferecer muito mais do que vimos no palco do Treze.

Quem torce pelo seu trabalho, e eu me incluo nesse clube, fica no compasso de expectativa que o músico porto-alegrense de 47 anos recupere vigor e vitalidade. Afinal, é muito cedo pra se entregar. Capacidade não falta em uma das mentes mais criativas e (ainda) respeitadas do rock nacional.

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Comentários

  1. Sempre que leio notícias como esta penso: quanto vale o show?

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