RESENHA: "SHADOWS IN THE NIGHT", DE BOB DYLAN

O triunfo do Bardo como crooner. Divulgação

Bob Dylan lança novo álbum nesta terça-feira (03). “Shadows in the Night”, 36º disco de estúdio do músico norte-americano, paga tributo a Frank Sinatra. Provavelmente essa ‘homenagem’ possa parecer estranha para muitos, e por isso, resolvi convidar meu amigo Cristiano Radtke (Stones Planet Brasil), e assim, expormos nosso ponto de vista sobre esse trabalho que certamente dividirá opiniões. Que fique claro: somos dois entusiastas dessa nova empreitada de Dylan recauchutando canções que ajudaram a forjar a música POP do século XX.

Nova empreitada? Nem tanto assim.

Grings – O negócio é o seguinte, em primeiro lugar, quem não gosta de Frank Sinatra, não divide o mesmo copo de uísque comigo.  O que talvez muita gente não perceba, é que Dylan já transita nessa praia de flertar com jazz e o songbook norte-americano faz tempo. Por exemplo, dá pra perceber essa linhagem musical em algumas canções de “Love & Theft” e “Modern Times”, e também pela nova atitude de crooner que adotou no palco, principalmente nos últimos anos. Ele está utilizando uma nova abordagem nas gravações e apresentações, tanto pela posicionamento nos shows, cada vez mais sem utilizar instrumentos (harmônica, guitarra, piano, etc), mas principalmente na forma que utiliza sua voz.

Radtke – É, esse lance crooner que ele assumiu de vez se encaixa em mais um dos “renascimentos” do homem, que começou como cantor folk, depois enfrentou a raiva dos puristas com sua guitarra, passou pela fase country, iniciando com “Basement Tapes”, voltou a ser um cantor de rock na tour de 1974, entrou na chamada ‘fase cristã’, sobreviveu aos anos 1980 e ainda vem renascendo e mudando de persona a cada disco que lança. Difícil imaginar o que irá fazer a cada ano. Quem iria prever esse álbum com músicas gravadas pelo Sinatra?

Arte original da capa. Divulgação
Grings – Cara, um artista de 73 anos que ainda busca distância da zona de conforto, isso é raro. As primeiras notícias sobre esse novo disco diziam que Dylan e sua banda gravaram no Estúdio A da Capitol, em Los Angeles, um local com capacidade para 50 músicos. Na verdade, tudo foi captado no Estúdio B, um espaço bem menor, mas no mesmo prédio onde Sinatra carimbou muitos de seus clássicos. E naquele esquema de sempre: registrado ao vivo, praticamente sem overdubs. Enquanto os arranjos de Sinatra sobrepunham muitas vezes vinte músicos ou mais, no caso de Bob, ele trabalha com um time reduzido, mais precisamente com seus homens de confiança: Tony Garnier (baixo), Stu Kimball e Charlie Sexton (guitarras e violões), Donnie Herron (pedal steel), e George Receli (percussão). Eventualmente até convoca alguns músicos para metais de apoio, no entanto, quase tudo se resolve com seu quinteto, mesma rapaziada que passou pelo Brasil em 2012, incluindo a capital gaúcha.

Radtke –  Uma das coisas que me deixava curioso com esse disco é justamente o fato de ele regravar com a sua banda músicas que originalmente haviam sido gravadas com arranjos tão sofisticados. Dylan teve uma sacada de mestre com “Shadows in the Night”, lembre que em 2015 o mundo todo vai celebrar o centenário de nascimento do Frank Sinatra. Ele já havia falado da admiração por Ol’ Blue Eyes na autobiografia “Chronicles”. Inclusive, algumas das músicas em questão neste álbum já haviam sido tocadas ao vivo, e nesta fase da carreira, em que ele não precisa provar mais nada pra ninguém, Dylan acertou o alvo mais uma vez. Precisamos lembrar que esse não é seu primeiro disco de covers, contudo, certamente é o mais ousado. E um detalhe importante deste apanhado é que não é apenas um simples tributo a Sinatra no ano de seu centenário. É mais do que isso. Se as músicas (todas standards do cancioneiro norte-americano) já não fossem conhecidas, qualquer pessoa desavisada poderia achar que é um disco com composições inéditas de Dylan.

Herron, Garnier, Dylan, Receli, Kimball e Sexton. Foto: William Claxton
Grings – Bem, quem acompanhou o Time Radio Hour, programa de rádio que Dylan fez na década passada, sabe da sua paixão por standards. No caso de “Shadows in the Night”, as canções escolhidas cobrem cinco décadas importantíssimas da música do seu país, partindo dos anos 1920, até o final dos anos 1960. Em recente entrevista ele disse que se inspirou em “Stardust”, LP lançado por Willie Nelson em 1978. Outro crítico concluiu que suas interpretações lembram os dias finais de Chet Baker em “Let’s Get Lost”. Acho que é um pouco de tudo isso somado ao incessante faro do bardo em remexer nas origens da música do seu país. Ah, e os críticos adoram falar mal da voz de Bob. David Bowie disse uma vez que sua voz era uma mistura de areia com cola (claro que foi um elogio). E aí que reside o ponto principal desse pulo do gato, para seu triunfo, Dylan canta lindamente esse repertório de clássicos. Do seu jeito, sempre de uma maneira muito singular.

Confira “Shadows in the Night” na íntegra AQUI

“I’m a Fool to Want You”

O disco já começa como uma faca afiada perfurando algo macio. “I’m a Fool to Want You”, música que Sinatra ajudou a escrever, mostra o quanto Dylan reinventa essas canções. Gravada originalmente com trinta e um músicos, ele dá o tom das coisas já nos primeiros segundos. Guitarras e violões limpinhos, pedal steel na linha de frente e bateria invisível. Al Schimdtt, engenheiro de som que captou o disco no início do ano passado, disse em recente entrevista que Bob afirmou nunca ter ouvido sua voz soar tão bem. Além disso, a letra desse tema que também foi eternizado na voz de Billie Holiday, dá as cartas da temática de “Shadows in the Night”: um amor perdido no tempo, e que talvez nunca mais seja resgatado.

 “The Night We Called It A Day”

O naipe de sopros e o baixo acústico de Tony Garnier saltam aos ouvidos. Já o violão jazzístico de Stu Kimbal nos coloca pra bater o pé. Charlie Sexton faz o primeiro (e curtíssimo) solo de guitarra. Dylan apresenta uma versão minimalista que, por exemplo, rivaliza com a releitura feita por Chet Baker. Lembrando que a ausência de piano, instrumento inexistente nesse trabalho, é outra característica saliente nos arranjos. Algo interessante para um disco que tem um selo com cores jazzísticas.

Al Schmitt, o homem que captou as 24 canções gravadas por Dylan no início de 2014. 10 estão em “Shadows in the Night”.
“Stay With Me”

Essa foi a segunda faixa liberada para audição. Um amigo me disse que o pedal steel foi um instrumento inventado pelos anjos. Segundo ele, eles, os anjos, não tocariam harpas, mas sim esse instrumento vinculado à música country. Donnie Herron, que em 2015 completa 10 anos de sideman na Never Ending Tour, é um dos destaques de “Shadows in the Night”. Fácil entender por quê, os arranjos o privilegiam, já que as orquestrações foram substituídas pelo pedal steel. Com isso, o link do country com o jazz ficou aguçado e longe do óbvio. Quanto a letra, é Dylan implorando desesperadamente para que seu amor não vá embora.

“AutumnLeaves”

Além de Sinatra, nomes como Bing Crosby, Sarah Vaughan, Eartha Kitt, Bill Evans e Miles Davis fizeram sua versão de “Autumn Leaves”. Essa canção escrita por um poeta francês e musicada por maestro húngaro, ironicamente tornou-se um patrimônio do imaginário musical norte-americano. Na versão de “Shadows in the Night” o baixo e o arco ondulam simultaneamente seguindo a voz de Bob, que consegue encontrar uma nova visão sobre uma música que foi tão exaustivamente explorada.

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"Why Try to Change Me Now”

Mais recentemente, Fionna Apple fez uma bonita releitura de “Why Try to Change Me Now”. O lado A termina com o mesmo número, outro som guiado pela voz do cantor e o pedal steel. O violão apenas pontua os acordes na gaveta do tom. Devagar, bem devagar.

“Some Enchanted Evening”

Leia nos livros, olhe nos créditos dos seus discos de jazz e perceba a importância da dupla Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers. A América de terno e gravata dos filmes e do século passado foi embalada por dezenas de composições com a assinatura Hammerstein-Rodgers. O que muitos não imaginariam é que Dylan um dia cantaria uma delas. E que som! “Some Enchanted Evening” parece ter sido escrita por Bob.

Eis o crooner. Divulgação
"Foll Moon and Empty Arms"

A première de “Shadows in the Night” ganhou divulgação em maio do ano passado. E foi uma boa escolha. “Fool Moon and Empty Arms” é uma das melhores do novo trabalho, outro bom exemplo de interpretação peculiar. E eis que me surge a pergunta: George Receli realmente participou das gravações? Sim, ele apenas fez uns barulhinhos aqui e ali, trabalhando como percussionista. Acho isso sensacional. A limpeza do disco passa pela ausência de uma bateria.

“Where Are You?”

Se você ouvir a versão original de “Where Are You?” vai constatar o quão desafiadora e corajosa é a iniciativa de Dylan em homenagear Sinatra. E de todo modo, eis uma prova viva de que ele novamente se reinventou com crooner.

Foto: Paolo Brillo
“What’ll I Do”

Um tema de outro gigante dos standards, Irving Berling, ganhou destaque de grande parte dos críticos por um detalhe interessante: dá pra ouvir a respiração de Dylan. Talvez por que tudo foi gravado ao vivo (sem fones de ouvido), “What’ll I Do” é o exemplo claro dessa sensação de ouvir a música respirando, do cantor buscando fôlego entre um frase e outra. Por isso tudo pulsa livre, sem tingimentos, recortes ou maquiagem.

“That Lucky Old Sun”

O disco encerra com outro clássico absoluto do vocabulário jazzístico. Logo no início, os sopros dão a letra que o filme está acabando. Sim, dá pra imaginar os créditos e a ficha técnica deslizando pela tela. O clima solene e a forma como Bob pronuncia as palavras promovem o epílogo cênico para um disco que será odiado por muitos, mas que certamente ganhará espaço nas mentes que visualizam uma música isenta de modismos.

“Shadows in the Night” é Dylan sendo Dylan. Um disco repleto de silêncios, claridade e que marca outro dos renascimentos de um artista acostumado a se reinventar. Sendo mais específico, se Levarmos em conta os últimos 18 anos, mais precisamente desde “Time Out of Mind”, o velho não mais nos decepciona. Se há algo negativo nesse conjunto de canções? Talvez o álbum soe repetitivo a ouvidos menos acostumados a sutilezas e o clima jazzy dos standards. “Shadows in the Night” é um trabalho linear, sem momentos de alta e flui  em constante baixa rotação.  O disco de Dylan, como o nome já entrega, foi planejado para audições em noites e madrugada insones. Trilha sonora para garçonetes recolherem os copos antes de o último cliente pagar a conta, ou de um leão de chácara expulsar algum bêbado encrenqueiro que está morrendo de saudades de alguém.

Foto: Paolo Brillo


“Shadows in the Night”:

Bob Dylan – vocal e produção
Tony Garnier – baixo
George Receli – percussão
Donnie Herron – pedal steel
Charlie Sexton e Stu Kimbal – violão e guitarra
Dylan Hart e Joseph Meyer – trompa
Daniel Fornero e Larry G. Hall – trompete
Andrew Martin, Alan Kaplan e Francisco Torres – trombone

Ficha técnica:

Geoff Gans – arte gráfica
Steve Genewick – engenheiro assistente de áudio
D. I. Harper – arranjos
Al Schmitt – gravação e mixagem
Doug Sax – masterização

John Shearer – fotos

Foto de John Shearer que está na contracapa do álbum. Divulgação Columbia


Tracklist:

1. “I’m a Fool to Want You” Frank (Sinatra, Jack Wolf, Joel Herron) 4:51
2. “The Night We Called It a Day” (Matt Dennis, Tom Adair) 3:24
3. “Stay with Me” (Jerome Moross, Carolyn Leigh) 2:56
4. “Autumn Leaves” (Joseph Kosma, Jacques Prévert ) 3:02
5. “Why Try to Change Me Now” (Cy Coleman, Joseph McCarthy) 3:38
6. “Some Enchanted Evening” (Oscar Hammerstein II, Richard Rodgers) 3:28
7. “Full Moon and Empty Arms” (Buddy Kaye, Ted Mossman, Sergei Rachmaninoff) 3:26
8. “Where Are You?” (Harold Adamson, Jimmy McHugh) 3:37
9. “What’ll I Do” (Irving Berlin) 3:21
10. “That Lucky Old Sun” (Haven Gillespie, Beasley Smith) 3:39

Tempo total: 35:22

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