Love of my life





Minha mãe vive me falando para escrever sobre temas leves. Ela disse ter certeza de que eu posso inspirar positivamente às pessoas com aquilo que escrevo. Mamãe detesta quando eu escrevo palavrões ou exploro temas obscuros em meus textos. Nos últimos tempos, como voltamos a conviver diariamente, vez ou outra ela me fala disso, e sempre menciona o fato de ter ficado horrorizada com certas coisas que encontrou em meu último livro. Desde criança eu gostava de ler e escrever. Quando tinha meus sete ou oito anos, era interessado por paleontologia e corrida espacial. Em meus sonhos de menino, cheguei a me imaginar um paleontólogo ou astronauta. Com passar dos anos, fui adentrando o terreno dos HQs, literatura beat, Bukowski, Shepard, e aí foi. Essas escolhas literárias me levaram aquilo que sou hoje. Caí na música, no rádio e na escrita.

Sempre que olho as fotos antigas lá de casa, dá pra perceber por aquelas imagens, que minha mãe era totalmente dedicada a seus filhos (e ainda é). Minha memória mais antiga me leva aos tempos em que eu ficava no colo dela agarrado aos seus cabelos longos e negros. Aquele era um lugar confortável de se estar. Ah, se era...




Isso me levou a pensar que por mais que nos precavemos - toda a inocência e pureza dos bebês e crianças morrem um pouco todo dia. Enquanto crescemos, consequentemente vamos sendo contaminados com a sujeira do mundo. Admiro o amor e a benevolências das mães, não deve ser fácil assistir de camarote alguns desastres. Uma boa mãe pode ficar angustiada com as escolhas de seus rebentos. O Planeta Terra pode ser um lugar repleto de imundície, e muitas vezes, nós, os filhos de várias mães, estamos por aí, chafurdando na lama.

Dia desses li uma crônica para ela. Minha mãe chorou e se emocionou com a narrativa. Ela ainda frisou: ”Esse é tipo de texto que gosto”, disse enxugando as lágrimas, enquanto terminava de costurar uma camisa. Logo depois, em meio ao café, ela me perguntou o que estava acontecendo comigo. Ela disse que estava me achando triste. Eu disse que não havia nada. Pura mentira. Uma mãe percebe quando um filho está sofrendo. O que dizer para sua mãe quando o amor de sua vida se foi? Ainda mais quando você mesmo é o grande culpado de tudo. Poupei-a de minha tristeza. Coloquei um sorriso amarelo no rosto e continuei tomando o meu café.


Foto: Lauro Alves


Não tenho a mínima ideia de como contar isso a ela. Mas precisarei fazê-lo. Depois de sair de dentro do buraco no qual caí, e logo após todo o barulho, a ficha caiu. Tem um slogan de uma empresa conhecida que diz o seguinte: “Cuide-se como você cuida de quem você ama”. Eu não cuidei de quem me amava. Eu não me dediquei a quem mais se importava comigo. Cada pequeno fragmento de minha vida nos últimos quatro anos passa por ela. E mesmo assim errei violentamente. Magoei-a.

Nunca senti algo assim. Uma dor no peito e um aperto amargo no coração. Que o criador despeje sua ira sobre meus dias do porvir. Eu amava, ainda amo, e sempre vou amar essa mulher. Minhas noites de insônia estão apenas começando.

     

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