Rádio de pilha



Crônica #11 publicada no Diário de Santa Maria 29.09/2012 | N° 3259


Fico pensando nessa gurizada de hoje que cresce e passa seus dias em frente a um PC. Nada de livros e gibis ou brincadeiras de verdade. Nesse universo de jogos online e de descobertas em apenas um clique, a imaginação parece ter sido soterrada de vez, o lúdico inexiste. Claro que esses joguinhos de computador são bacanas e sedutores, no entanto, creio que vivemos numa época em que as crianças e os adolescentes não mais são instigados a imaginar. Lembro-me de um tempo distante, quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, vivia pra lá e pra cá lendo minhas revistas da Marvel e de faroeste, gastava os fins de tarde brincando de trabuco, carrinho de rolimã ou jogando bafo. Gostava de me instalar no fundo do quintal de casa com um modelo Motorádio do meu velho, ouvindo as paradas de sucesso da época. Pelo mesmo rádio, meu pai ouvia os noticiários da manhã e minha mãe cozinhava ao som de tangos e boleros.

Ainda é muito presente a lembrança dos domingos, quando voltávamos da casa de minha avó ou retornávamos dos balneários de Itaara, e meu velho ficava atento ao rádio do carro, geralmente acompanhando transmissões de jogos de futebol. Em casa, gostava de acompanhar as jornadas esportivas com o rádio ligado e a TV sem volume. Naquele tempo, eu detestava aquilo. Hoje, para desespero de meu filho, adotei uma prática semelhante. E até mesmo durante o trabalho, na oficina mecânica que meu pai administrava, havia sempre um rádio espalhando música e informação pelo ar. Talvez em decorrência disso tudo, eu tenha adquirido o hábito de sempre ter um rádio (de pilha) comigo.



Eu acordo e ligo o rádio. Acompanho a previsão do tempo, alimento minhas gatas, compartilho o café com minha mãe, tomo banho, me visto e até mesmo enquanto rumo em direção ao trabalho, aí já munido dos meus fones de ouvido, lá está o rádio, o tempo todo sussurrando informação e música nos meus ouvidos. Será que dá para imaginar algum garoto de hoje trocando seu notebook, iPhone ou computador pelo rádio? Acho difícil. Quando o assunto é livro, então, nós adentramos no território do (quase) inimaginável. Tanto o rádio quanto a literatura atuam em um terreno em extinção. Essa gurizada saca tudo de atalhos no teclado e de tecnologia, mas quando pedimos que escrevam apenas duas linhas sobre o que aconteceu há apenas 15 minutos, essa turma trava.

Gosto muito de uma frase do escritor Reinaldo Moraes: “A imaginação é uma droga pesada”. Eu fico pensando na minha infância e adolescência e, muitas vezes, divago: “Como seria meus 13, 14 anos se eu tivesse um PC em casa?”. Não tenho dúvida, seria completamente diferente. Gostava de fingir que estudava com um HQ do Ken Parker no meio do caderno de matemática. E como esquecer a primeira vez em que escutei Suite Jude Blue Eyes de Crosby Stills & Nash no rádio às quatro da tarde! Acreditam nisso? Aconteceu. Eram outros tempos.


Comentários

  1. Massa! Redescobri o rádio dia desses. Todo dia vou e volto a pé pro ginásio treinar e cada trecho dá 30 minutos. Um radinho de pilha tem sido um bom companheiro. Não é um rádio bagual como esse MotoRádio aí é um da Coby, candidata a Sony chinesa (Coby - Sony, rã?! rs), muito simples que comprei por uns 25 contos no Carrefour há uns 4 anos atrás. Caro! Só comprei porque ele sintoniza televisão também!

    Os hábitos da infância. Um deles eu repeti semana passada. Eu abri o bendito radinho pra ver como era por dentro! Que nem eu fazia quando era piá. haha
    Não lia Marvel nem o Ted, meu vício era turma da Mônica, Chico Bento, Pato Donald e Disney e depois já crescido o Urtigão!

    Falar nisso, tenho uma lembrança muito nítida de como eu olhava os desenhos e as figurinhas e inventava histórias, imaginando o que se passava e os diálogos, já que não sabia ler. Aí um dia, lembro de estar sentado na nossa antiga casa, um Chalé de madeira simples, rosa desbotado, No. 6 na Guilherme Cassel, quando a mágica aconteceu! Juntei as sílabas e não precisei mais imaginar a historinha, podia lê-las! Tudo passou a fazer sentido! Lembro ainda do espanto ao descobrir que o que eu tinha imaginado não tinha nada a ver com o que estava escrito! :D

    Uma última lembrança.
    Nas depressões de adolescente, teve um período em que quase não saía. Um dos passatempos era ficar horas e horas ao lado de um rádio Transglobe Philco-Ford no universo paralelo das Ondas Curtas, Médias, Longas, 40m, 64m, ..., caçando rádio, anotando as frequências e registrando as emissões de rádios distantes. Nessa brincadeira acompanhava a Deutsch Welle e sua excelente programação (os alemães são incríveis!), a BBC Internacional, e outras que fugiam do "mainstream" das rádios de alcance mundial.. como:

    A Rádio Havana Cuba, cujo lema sempre me pareceu diabólico, genial e bizarro: "Rádio Havana Cuba, território livre de américa!" Na época eu simpatizava com a esquerda e espumava de raiva quando mais ou menos pela metade da emissão da RHC começava a surgir em cima na mesmíssima frequência ou a emissão da Voz da América, ou a da Voz Cristiana, anti-castro, situados em Miami e financiados pelos dissidentes. Pois é, meu caro, guerra de informação, guerra cultural nas ondas do rádio!

    Lembro também da Rádio China Internacional, que tinha um curso de mandarim via rádio que estava na aula número 327! (Deem um nóbel ao cara que aprendeu chinês em aulas semanais via rádio! haha)

    Rádio do Vaticano, Rádio Romênia Internacional ("Romênia, uma ilha de latinidade num mar eslavo!"), a NHK (aonde aprendi que nossa expressão 'fazendo cera' lá se diz 'abura no uru', 'vendendo óleo'), rádios árabes que nunca saberei o nome, africanas em frances, entre tantas outras!

    Aliás, foi ouvindo as emissões em português da Deutsche Welle que soube que, na Alemanha, as TVs perdiam em popularidade e audiência para as rádios! Isso ali nos idos de final dos 90, início dos 00!

    Um abraço, boa crônica, trouxe na memória essas histórias aí!
    Francis Lauer.

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